sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Agradecimento enternecido: José António Saraiva & Luís Represas

É a lei inexorável da vida. Não há como enganar, contornar ou ignorar esta realidade: mais cedo ou mais tarde, a nossa hora chegará.

Perante esta certeza, resta-nos a gratidão. Gratidão por aqueles que, através da sua obra, do seu exemplo e da sua humanidade, enriquecem a nossa passagem por este mundo e deixam em nós marcas que o tempo jamais conseguirá apagar.

 José António Saraiva e Luís Represas são duas dessas personalidades na minha vida.

Ambos merecem a minha mais profunda admiração e respeito. Tive o privilégio de os conhecer pessoalmente.

 Escrevo estas palavras como um agradecimento sentido e enternecido. Agradeço-lhes a inspiração que representam, o legado que construíram e a marca indelével que deixaram na minha vida.

De formas diferentes, ambos contribuíram para moldar a minha sensibilidade, a minha humanidade e a consciência da minha própria temporalidade.

 Quero começar por José António Saraiva.

Filho de António José Saraiva, um dos maiores vultos da intelectualidade portuguesa do século XX e, para mim, o mais brilhante escritor que alguma vez li (e que livros fabulosos editou e andam tão esquecidos do público e das escolas…).

José António construiu um percurso singular, recusando viver à sombra do nome do pai. Ao longo da sua vida afirmou-se como jornalista, escritor, diretor de jornais e comentador da política portuguesa, sempre com uma independência de pensamento rara.

Há mais de trinta anos que o acompanho. Vi-o transformar o Expresso numa referência incontornável da comunicação social portuguesa. Assisti ao nascimento do Sol. Li os seus romances, que guardo com orgulho autografados na minha biblioteca. Mas, acima de tudo, acompanhei um homem que nunca teve receio de pensar pela sua própria cabeça.

O que mais me impressiona em José António Saraiva não é apenas a inteligência ou a cultura. É a coragem.

A coragem de manter a sua independência intelectual, mesmo quando isso lhe trouxe incompreensões, críticas e ataques. Durante décadas foi alvo de contestação por parte de quem confundia divergência com hostilidade. Ainda assim, permaneceu fiel às suas convicções, sem se deixar aprisionar por ortodoxias, modas ou consensos impostos.

Num tempo em que tantas vozes escolhem o conforto da conformidade, José António escolheu a liberdade. E essa liberdade, aliada à inteligência, à cultura e à honestidade intelectual, é uma das razões pelas quais continuará a merecer a minha admiração.

Luís Represas ocupa um espaço muito especial na banda sonora da minha vida.

Na minha opinião, o Trovante foi a maior banda portuguesa de sempre. Cresci a ouvir as suas canções, que acompanhavam viagens, encontros familiares, momentos de alegria e de reflexão. Quando o fim da banda foi anunciado, eu tinha apenas 19 anos. Recordo-me perfeitamente da incredulidade que senti. Parecia impossível que um projeto tão marcante anunciava o seu fim.

Continuei, naturalmente, a acompanhar Luís Represas a solo. Tenho todos os seus álbuns (expeto o último), tal como tenho toda a discografia do Trovante. O seu primeiro álbum a solo ficou para sempre ligado a uma das memórias mais ternas da minha vida: o último verão que passei com a minha avó, em Bensafrim, no Algarve. Foi também o último verão vivido na antiga casa da família. Sempre que oiço aquelas músicas, regressam-me memórias que pensava adormecidas.

Ao longo dos anos assisti a dezenas de concertos, houve, porém, uma ausência que nunca deixei de lamentar. Em 1998, quando o Trovante realizou um dos concertos mais emblemáticos a pedido especial do então presidente da República Jorge Sampaio, no Parque das Nações, eu tinha bilhete, mas compromissos profissionais impediram-me de estar presente. Foi uma daquelas oportunidades que acreditamos poder recuperar mais tarde.

Décadas depois, por mero acaso, voltei a pensar nesse concerto e em todos os outros que ainda gostaria de assistir, mormente ao último deste ano. Que também perdi

Este último vi na RTP e achei fabuloso, foi mesmo dos melhores e cantaram músicas que há muito não se ouviam.

Na véspera da morte de Luís Represas, estava na sala a trabalhar e dei por mim, de repente a pensar nos concertos em palco do Luís Represas, seja a solo ou com o Trovante, inconscientemente procurava saber quantos anos ainda teria para continuar a desfrutar da sua voz, da sua presença e da cumplicidade extraordinária que sempre soube criar com os músicos em palco e com o público fora dele. 

Na manhã seguinte acordei a trautear uma canção do Trovante: a “Xácara das Bruxas Dançando”. Horas depois recebi a notícia da sua morte.

Fiquei profundamente abalado.

Muitas vezes pensamos que teremos sempre tempo para agradecer às pessoas que admiramos. Que haverá sempre outro concerto, outro livro, outra conversa, outra oportunidade. Mas a vida raramente nos dá essas garantias.

Ao escrever estas palavras descobri algo que desconhecia: um álbum editado durante a pandemia e uma canção “Cinema Estrada” que é um seguimento da mítica 125 Azul”, música que me acompanha há décadas.

Muito se escreveu sobre esta canção. Muito se especulou sobre o seu significado. Mas talvez o segredo da sua beleza resida precisamente nisso: cada pessoa encontra nela um pedaço de si própria. Uma memória. Uma perda. Uma viagem. Um sonho. Ou uma reflexão sobre o destino inevitável que a todos nos une.

Hoje, ao olhar para trás, percebo que tanto José António Saraiva como Luís Represas me ofereceram muito mais do que obras, livros ou canções.

Ofereceram-me companhia ao longo da vida.

Ajudaram-me a pensar, a sentir, a questionar e a compreender melhor o mundo e as pessoas. Estiveram presentes em momentos felizes e em momentos difíceis. Fizeram, e vão continuar a fazer parte daquilo que sou.

E por isso, com sincera emoção, deixo aqui o meu mais profundo agradecimento.

Muito obrigado, José António Saraiva.

Muito obrigado, Luís Represas.

A minha vida ficou mais rica porque os vossos caminhos se cruzaram com o meu.

Gratias ago. Non obliviscar. Requiescite in pace. - Obrigado. Não vos esquecerei. Descansai em paz.

  

Massamá, 21 de agosto de 2026

José M. T. Gomes

 

 

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

O desnorte de Rui Costa

Para quem gosta de futebol, e viu Rui Costa jogar não passou indiferente à enorme categoria do maestro dentro dos relvados espalhando magia nos maiores relvados europeus e mundiais.

Acabou a carreira no Sport Lisboa Benfica, seu clube de formação, orientado na altura por Fernando Santos na época de 2007/2008. Na última época como jogador já se sabia que ia ser “chefe” do seu treinador, ocupando o cargo de diretor desportivo do Benfica.

Desde então, Rui Costa permaneceu como dirigente durante 13 anos até chegar à presidência do Sport Lisboa Benfica sem que tenha realizado nada de significativo, embora gozando de um estatuto e admiração provocado pelo efeito "halo", os adeptos continuam a admirar as suas qualidades como jogador julgando que essas qualidades trespassam para as de dirigente, nada mais errado.

Sou um profundo admirador do Rui Costa futebolista, mas um critico acérrimo do dirigente.

Rui Costa mostrou desde cedo que não se preparou ou realmente não tem vocação para liderar uma organização com a dimensão do Benfica. Alguém que passa ao lado de tantos e tantos casos polémicos, julgamentos, acusações, casos ainda em justiça, o que andou ele a fazer durante 13 anos?

Pondo o passado para trás, há pontos que na minha opinião são básicos quando se assume uma liderança.

Um líder com carácter forte não tem medo de romper com o passado e escolher a sua própria equipa administrativa, ora, ele fez exatamente o contrário, manteve a mesma equipa inclusive cargos de confiança pessoal. Acresce, que alguns elementos estavam a ser acusados pela justiça (ainda estão alguns) Isto é impensável quem pretende liderar uma organização, é como mudar o Governo e os cargos da confiança política manterem-se… Não faz qualquer sentido. 

Em contraponto o que fez André Vilas Boas no F.C Porto quando chegou à presidência? “Limpar” com o passado e colocar uma nova equipa, para o bem ou para o mal, mas é assim que deve ser, e no futuro irá ser criticado ou levar com os louros.

Domingos Soares de Oliveira (CFO) e ex administrador apanhado em escutas judiciais em que afirmara que Rui Costa era mandrião, não fazia nada e era incompetente continuou no SLB e saiu quando quis. Curiosamente, a única pessoa da direção que saiu (além do Domingos) e demitiu-se foi Luís Mendes administrador executivo da SAD e vice-presidente do Benfica, homem da confiança de Rui Costa e contratado por ele.

Foi o amigo do presidente que se demitiu…

Na altura a comunicação social trouxe à estampa que a principal razão da sua saída estava relacionada com divergências e 'ciúmes' que Luís Mendes tinha da influência crescente de Nuno Costa, assessor e secretário de Rui Costa.

Isso parece-me uma história muito mal contada…

Nuno Costa é o Chefe do Gabinete do Presidente (Chief of Staff) desde 2018 e exerceu esse mesmo cargo na Câmara Municipal de Oeiras entre jan de 2009 - out de 2017 · 8 anos 10 meses, ainda uma contratação de Luis Filipe Vieira que Rui Costa não teve coragem de substituir.

Nem imagino o ambiente de cortar à faca que deve ser esta administração…

Outra saída com bastante impacto foi a do chief scout Pedro Ferreira para o Nottingham Forest. Sentiu-se desautorizado pela estrutura por diversas vezes, o caso que deu mais brado foi a contratação por 14M€ do lateral David Jurásek a pedido do treinador (sem a aprovação do scout) e que foi “dispensado” no mercado de inverno.

Ainda não há substituo para o chief scout Pedro Ferreira e, entretanto, saíram mais elementos dessa equipa por desacordo com a política do clube

Rui Costa comunica mal, fala quando não deve, quando deve fica calado, é contraditório, não é claro e isso não transmite confiança aos seus interlocutores, adeptos e Stakeholders em geral.

Vejamos a explicação da saída por 120 M€ do Enzo Fernández por Rui Costa.

(O presidente das "águias" garantiu que o clube "fez de tudo” para que o argentino ficasse, mas que, ainda assim, Enzo Fernández "não mostrou nenhum compromisso com o Benfica").

Não mostrou compromisso com o Benfica?!

Foi ganhar 50M€ e deixou os cofres do SLB cheios e não teve compromisso com o clube?!

Vejamos a explicação pela saída de João Neves: «As pessoas têm de compreender que adiámos durante muito tempo esta transferência, rejeitámos as primeiras propostas de forma clara, só que chegámos a determinados momentos e números que tornaram a transferência inevitável. Verbas de 70M€ de euros não são possíveis de abdicar pelo clube»

Lembrar que João Neves tinha uma cláusula de rescisão igual à do Enzo, mas as explicações e os valores da venda são contraditórios…

Não se pode dizer que o Benfica de Rui Costa venda mal, mas a comprar é outra história, desde que é presidente já gastou mais de 200M€ de investimento.

Por fim a questão do treinador, é óbvio que a equipa não está com ele, lê mal o jogo, prepara mal as equipas e nunca deveria ter começado esta época, é o resultado da total inoperância do Rui Costa…

Satis sum semel deceptus - Ter sido enganado uma vez basta.

                                                Lisboa, 16 de agosto de 2024

                                                            José M. T. Gomes



quarta-feira, 3 de maio de 2023

Erro político de Costa

 Ao contrário do que era esperado, António Costa recusou a demissão do ministro das infraestruturas João Galamba, aumentando as já depauperadas relações institucionais com o Presidente da Republica, Marcelo Rebelo de Sousa.

António Costa está no poder há vários anos sendo politicamente muito hábil a gerir as expetativas das diversas correntes políticas, não é um homem de fazer obra, de executar projetos; limita-se a gerir o poder. Por isso, a geringonça funcionou relativamente bem. Ora, com a maioria absoluta ganha nas últimas eleições, pedia-se menos “habilidade” política e mais ação, que formasse um Governo capaz de fazer as reformas estruturas que o país carece.

O ainda Primeiro-Ministro nunca poderá sair incólume destes últimos acontecimentos (TAP e não só…), mas podia ter assumido os seus erros, remodelar o Governo com pessoas capazes mesmo que fora do espetro partidário, e seguir com a legislatura.

António Costa prefere eleições antecipadas a remodelar o Governo, isso parece-me claro; primeiro, afrontando abertamente o Presidente da Republica mantendo João Galamba, mesmo este tendo mentido; segundo, responsabilizando-se politicamente doravante pelo próprio João Galamba, em que a probabilidade de voltar a estar envolvido em mais polémicas é enorme, João Galamba é como um elefante numa loja de porcelana.

António Costa acredita realmente que não há alternativa a este Governo e que mesmo que Marcelo convoque eleições que o PS vencerá novamente.

Ele está a ler mal o xadrez político, e ao contrário dos comentadores políticos, penso que Marcelo Rebelo Sousa estará muito confortável em dissolver a Assembleia da República e convocar eleições antecipadas.

O líder do PSD Luís Montenegro tem afirmado repetidamente que não fará coligações com partidos populistas, racistas e xenófobos, numa clara alusão ao Chega, chamando a si os votos da direita parlamentar.

Se houver dissolução da Assembleia da República, o PSD pode perfeitamente ambicionar uma vitória nas legislativas e, até mesmo, obter uma maioria absoluta.

Porquê?

Porque o PS vai ser bastante penalizado com o descontentamento do próprio partido e da esquerda em geral, e o Chega vai ser penalizado à direita, porque os votos vão concentrar-se no PSD.

André Ventura também está a ler mal o panorama político, achando que o Chega vai crescer e corre o risco de perder deputados, ou até mesmo a representação parlamentar.

António Costa não foi corajoso, encetou uma fuga desesperada para a frente...

  

Bonis nocet qui malis parcet – Quem poupa os maus, prejudica os bons

  

                                                                    Lisboa, 03 de maio de 2023 

                                                                          José M. T. Gomes

 

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Caça aos Gambozinos

 

A noite vai longa, cansada e arrefecida, entregar-se-á prostrada à alvorada que não tarda a irromper pelo céu avermelhado para abafá-la de luminosidade. O burburinho vai sendo cada vez mais ténue. Os noctívagos vão-se recolhendo paulatinamente das suas demandas e outro dia nasce timidamente. Continua a busca frenética e a perscrutação impaciente dos cúmplices: “Onde estará ele? Ter-se-á perdido na Serra?”

 


§

O movimento ritmado e circular das danças tradicionais volatilizou-se como uma nuvem de fumo. Os pares pararam de dançar, a música deixou de tocar, o órgão e o acordeão emudeceram e apenas se ouviam as algaraviadas daqueles que ainda permaneciam no terreiro diante do palco.

O bailarico terminara!

As horas foram caminhando alheias à minha absorção e o ponteiro do relógio anunciava em breve as quatro da madrugada. “Passou rápido este baile”, pensei eu.

Os corpos suados e fatigados dispersavam com sorrisos rasgados do átrio da coletividade do clube Estrela Desportiva de Bensafrim.

Naquele tempo e àquela hora, a minha presença no baile era inusitada. Normalmente aos sábados à noite entre julho e agosto, chispava de Bensafrim na companhia de alguns amigos rumo a Lagos. Inflamados pelo delírio hormonal próprio da adolescência.

Em Lagos calcorreávamos todas as artérias circundantes entre o «Mullen´s Bar» e o «Cavaleiro», passando pelo «Bon Vivant Bar» e, muitas vezes, encerrávamos a noite numa qualquer discoteca como o «Phoenix Club», «Elétrico» ou «O Lançarote» conforme a berra da época.

A inquietação dos funcionários a limpar e a arrumar os despojos do baile confirmava que a hora da abalada tinha chegado. Estavam exaustos, trabalharam incansavelmente horas a fio, e restava-lhes pouco tempo para descansarem. Na manhã seguinte, alguns deles(as), levantar-se-iam cedo para cumprirem escrupulosamente a celebração da missa.

Sempre fora assim!

Todos os domingos passavam em romaria em frente à casa da minha avó em direção à igreja situada a cerca 100 m.

Depois de beber o que restava do Sumol de ananás, caminhei na direção do balcão e depositei a garrafa na superfície de mármore branca, manchada de cerveja e restos de mostarda. Em arrabalde sobravam alguns homens ébrios de bochechas rosadas e cabelos desgrenhados, esforçando-se para não sucumbirem aos efeitos do álcool. Apesar da familiaridade dos rostos que me cercavam – Bensafrim era (ainda é) uma pequena aldeia onde todos se conhecem – observavam-me com olhares perscrutadores e admirados pela minha presença solitária.

A caminho da saída, fui interpelado pelo Manuel. Um algarvio de gema, vizinho da minha avó; conhecíamo-nos de vista, nunca trocara-mos mais do que um “bom dia”, uma “boa tarde” ou, uma “boa noite”, até àquele momento.

“Então por aqui?”, disse ele. O Manuel tinha pouco mais de trinta anos de idade, um tipo alto, de pele morena queimada do sol, cabelo acastanhado claro, curto, muito espesso e puxado atrás; olhos azuis cristalinos e sorriso trocista. Apesar da nossa diferença de idades, algum tempo depois ainda jogámos futebol no mesmo clube, era o guarda-redes da equipa.

“É verdade”, respondi. “Pelos vistos não sou o único.”

“Pois. Isto hoje foi fraquinho. Acabou cedo”, confidenciou-me resignado. “Então e os teus amigos deixaram-te sozinho?”

“Não”, respondi. “ Uns foram para casa antes de o baile terminar, outros foram curtir a noite para Lagos.”

“Então e tu não foste com eles porquê?”

“Estava preguiçoso, não quis. Mas estou arrependido, com uma noite destas, não me apetecia nada ir para casa. E tu Manuel? Vais a algum lado?”

“Sei lá…”, acendeu um cigarro, e antes de pousar a garrafa vazia no balcão revolveu a cabeça para um lado à procura de alguém, virou a cabeça para o lado oposto, alçou o braço musculado, abanando a garrafa e pediu mais uma cerveja. “ Tu? Queres beber alguma coisa? Uma cervejinha, um…?”

“Não, obrigado”, atalhei de imediato. “Olha lá, e se fossemos a Lagos ter com a malta? Aproveitavas e bebias lá um copo, que dizes hã?”

“Ir para Lagos agora? A esta hora? Hum, é tarde, os bares já estão a fechar”, engoliu com sofreguidão metade da garrafa de cerveja como se fosse a última bebida da noite.

“Achas mesmo?”, retorqui.

“Sim. A esta hora não vale a pena ir a Lagos”, fez-se um silêncio. “Olha, sabes onde vou?”

“Não diz lá?!” Bebeu mais um trago de cerveja, “vou aos Gambozinos com a malta!”

“Vais onde? Aos gamb… quê?”

“Aos Gambozinos”, replicou.

“Que é isso?”

“Olha lá que idade tens pá? Não sabes o que são Gambozinos?” perguntou com assombro, chocado com a minha ignorância.

“Tenho 16 porquê?! E nunca ouvi falar nisso!”

“Humm, com que então nunca foste aos Gambozinos!?” Gracejou, “é um ótimo petisco…”

“Um ótimo petisco!?” Mas que raio de petisco será esse, pensei eu…

“Deves estar a mangar comigo?! Aos anos que vens para Bensafrim, tens tantos amigos, tens família e queres que eu acredite que nunca foste aos Gambozinos?”

“Epá, nunca fui! Nem nunca na minha vida ouvi falar em tal coisa. Mas, afinal que merda é essa? O que são Gramesiles, Gambrosilus... ou lá o que isso é?”

“Gambozinos. Chamam-se “Gam-bo-zi-nos”, como explicar? É um bichano que é ótimo para o petisco, tipo muelas.” A cabeça do Manuel rodava de um lado para o outro, como que à procura de alguém que o ajudasse com a explicação.

“Deve ser deve. Saíste-me cá um bazófias, estás a mangar e eu a ver…-pah!”

“Não estou não. Os Gambozinos são…”

O balcão exterior do átrio esvaziara-se e o que restava dos funcionários e dos clientes encontravam-se todos no balcão do salão interior. O Manuel gritou com estrépito lá para dentro, “Ernesto”, não obteve resposta. Gritou mais alto, “ó Ernesto, anda cá pá. Traz aí mais uma cerveja e um Sumol de ananás ao moço que ele hoje vai connosco aos Gambozinos.”

Num ápice, o Ernesto apareceu com um Sumol de ananás numa mão, uma cerveja na outra e, de voz excitada dirigiu-se ao Manuel “eia, eia, já nem me lembrava que hoje íamos aos Gambozinos pá!” Virou-se para mim, deu-me o Sumol, “então nunca foste aos Gambozinos?” Perguntou.

“Não!”

“Ó Ernesto explica lá ao moço o que são Gambozinos, enquanto vou à casa de banho”.

“Olha lá e vão com quem?” Perguntei impaciente antes que o Manuel saísse.

Cruzaram um olhar cúmplice e disse o Manuel, “então, vamos com a malta que está lá fora. O que achas tu que eles estão a fazer junto ao portão, hã? Estão à nossa espera e de mais gente que se vem juntar a nós.”

“Mas… ó Manuel não está ninguém lá fora. Não oiço vozes nenhumas.”

“Devem ter ido a casa trocar de roupa. Tem calma que eles devem estar a chegar. Além do mais, só vamos depois das portas do clube fecharem. Há malta que ainda está de serviço e que também vai connosco que pensas tu?”

Apesar da inverosímil história do Manuel, a verdade é que nunca ouvira falar em Gambozinos, a minha curiosidade dominava os meus sentidos e o desafio inquietante permanecia em saber até onde me levaria este engodo. Fiquei sozinho por breves instantes no centro do átrio, a inspirar o perfume da noite típica algarvia, perfume esse que nunca deixei de o sentir durante toda a minha vida; um aroma libertado do ládano das estevas misturado com o bálsamo a figos, amêndoas e alfarrobeiras.

Enquanto permanecia no centro do átrio, a minha mente vagueava e ia embalando no repouso da madrugada quando subitamente, o silêncio foi brutalmente interrompido pelo rosnar pujante dos motores dos automóveis a chegarem ao portão do recinto do baile. Do outro lado, na minha direção vinha o Manuel com um séquito de aldeões, funcionários do clube, amigos, conhecidos e estranhos vindos não sei de onde. O balcão voltou a encher-se de gente de semblante rosado e enérgico em contraste aos que anteriormente exibiam traços de fadiga. Parecia que o baile ia começar

“Estás a ver? Esta malta vai toda connosco!” anunciava o Manuel com voz exaltada.

“Vai esta malta toda?!”

“Sim, claro! Estavas à espera de quê? Pensavas que estava a brincar?”

Como foi possível em tão pouco tempo aparecer tanta gente agitada sobre o tema da “Caça aos Gambozinos?”

O balcão voltou a encher-se de funcionários e de cozinheiras excitadas com a iguaria que haveriam de cozinhar no dia seguinte. Falavam entre eles e eu assistia admirado.

Apesar da situação invulgar, nunca imaginaria que um rapaz como eu fosse capaz de mobilizar tanta gente em poucos minutos, a uma hora tão tardia em que muitos dos intervenientes estavam exaustos.

Porque haveriam de se dar a esse trabalho?

Caminhámos para a entrada do edifício onde do lado de fora estavam diversos carros que nos aguardavam de gente entusiasmada com o evento, tinham sacas de sarapilheira. Segundo o Manel, teríamos de colocar a saca perto de um determinado buraco em local estratégico na Serra, e esperar em silêncio para que os Gambozinos saíssem do buraco diretamente para a saca.

Antes de sairmos ouvira uma conversa com várias cozinheiras do clube que versava sobre a confeção da iguaria no dia seguinte, tudo bem delineado e devidamente planeado, com a distribuição de tarefas muito bem definidas entre elas, inclusivamente as horas de entrada.

Entrei num carro e seguimos em direção à Serra, não foi longa a viagem, cerca de meia dúzia de quilómetros. Os carros imobilizaram-se numa reentrância da Serra em piso de terra batida, e todos saíram apressadamente dos veículos com sacas de sarapilheira na mão e foram-se colocando em locais estratégicos que supostamente conheciam. Eu, por outro lado, fui caminhando pela Serra com o Manel, para trás ficava o silêncio e passados alguns metros chegámos a um pequeno monte, o Manel pediu-me para esperar um pouco para me explicar a técnica da Caça ao Gambozino, mas logo senti um vulto em passo agitado em direção aos carros que entretanto se haviam enchido de gente. Corri atrás dele, mas não fui a tempo e ali fiquei sozinho quase às cinco da madrugada a ver os carros serpentearem a Serra a caminho da aldeia de Bensafrim.

Senti-me enganado e desiludido!

Uma noite tão boa, mágica e eu ali no meio da Serra àquela hora...

Coloquei a mão no alcatrão e estava quente, certamente acima de 30 graus. A noite estava realmente quente.

A desilusão foi desaparecendo e deu lugar à aceitação da minha condição, aproveitei aquele momento para contemplar a natureza e a minha presença. Não se ouvia um único som de presença humana num raio de muitos quilómetros, apenas os burburinhos da vida animal na Serra sob um céu estrelado magnifico e o perfume característico do Algarve.

Este momento mágico ficou cravado na minha memória e foi uma enorme lição de vida, em como podemos olhar de forma diferente em situações adversas e sermos positivos e capazes de nos reinventarmos e seguir em frente, ao invés, de nos lamentarmos da situação onde nos encontramos

Passei alguns dos minutos mais mágicos e marcantes que alguma vez senti, uma paz tranquilizadora como nunca antes havia sentido (possivelmente depois também não), uma comunhão perfeita entre o meu ser e o ambiente, como se fosse o único ser humano à face da Terra.

Senti-me forte, em paz, seguro… fiz-me ao caminho e passados alguns minutos via  carros a serpentearem Serra acima para me irem buscar, mas quando eles se aproximavam escondia-me na berma da estrada até chegar à aldeia, o percurso deve ter demorado cerca de 45 minutos.

Cheguei à aldeia com o nascer do Sol, encontrei uns velhotes sentados junto ao antigo poço, pedi-lhes para não dizerem a ninguém que havia chegado.

Quando me deitei ainda ouvia carros a subir e descer a Serra à minha procura…

Continuava a busca frenética e a perscrutação impaciente dos cúmplices: “Onde estará ele? Ter-se-á perdido na Serra?”

Todos nós ao longo das nossas vidas passamos por altos e baixos, devemos procurar sempre o lado positivo das coisas, e transformar as nossas fraquezas em  forças

 

Um grande abraço às gentes magnificas de Bensafrim,

José Manuel Trindade Gomes

domingo, 27 de outubro de 2019

O fruto da resiliência


Em junho de 2018 fiz um discurso no clube PMI Portugal Toastmasters intitulado “Resiliência
Começo esse discurso com uma história sobre o meu filho Rodrigo, em que no primeiro torneio de karaté que participou, poucos minutos antes do primeiro combate desistiu, porque estava aterrorizado, tinha medo.
Eu como pai e amigo, incentivei-o, como sempre fiz durante toda a sua existência, a nunca desistir e ser resiliente. Mas, há momentos na nossa vida em que se não estivermos preparados, é bom e saudável dar um passo atrás pora que possamos depois prosseguir o nosso caminho com mais confiança, mais fortes e capazes.
Foi isso que disse ao meu filho naquele momento de fraqueza, recuar, para poder avançar.
Nesse mesmo discurso conto outra história em que eu quase havia desistido de um fim de semana, e nessa altura, foi o meu filho Rodrigo que não me deixou desistir, e pôr em prática uma lição que eu lhe tinha ensinado.

A vida é curiosa, somos sempre professores e aprendizes…
 Um ano após a desistência, e eis que o meu filho sobe ao pódio em outubro de 2019.
Ele foi forte e resiliente, e colheu os seus frutos. Uma lição de vida sem dúvida.

Sou um pai orgulhoso, e vou continuar a ensinar e a aprender com o Rodrigo.


Filho és um verdadeiro CAMPEÃO.

Unusquisque sua noverit ire via [Propércio] – Cada qual saberá escolher o seu caminho.


                                                                       Lanhelas, 27 de outubro de 2019
                                                                                   José M. T. Gomes