É a lei inexorável da vida. Não há como enganar, contornar ou ignorar esta realidade: mais cedo ou mais tarde, a nossa hora chegará.
Perante esta
certeza, resta-nos a gratidão. Gratidão por aqueles que, através da sua obra,
do seu exemplo e da sua humanidade, enriquecem a nossa passagem por este mundo
e deixam em nós marcas que o tempo jamais conseguirá apagar.
Ambos merecem a
minha mais profunda admiração e respeito. Tive o privilégio de os conhecer
pessoalmente.
De formas
diferentes, ambos contribuíram para moldar a minha sensibilidade, a minha
humanidade e a consciência da minha própria temporalidade.
Filho de
António José Saraiva, um dos maiores vultos da intelectualidade portuguesa do
século XX e, para mim, o mais brilhante escritor que alguma vez li (e que
livros fabulosos editou e andam tão esquecidos do público e das escolas…).
José António
construiu um percurso singular, recusando viver à sombra do nome do pai. Ao
longo da sua vida afirmou-se como jornalista, escritor, diretor de jornais e
comentador da política portuguesa, sempre com uma independência de pensamento
rara.
Há mais de
trinta anos que o acompanho. Vi-o transformar o Expresso numa referência
incontornável da comunicação social portuguesa. Assisti ao nascimento do Sol.
Li os seus romances, que guardo com orgulho autografados na minha biblioteca.
Mas, acima de tudo, acompanhei um homem que nunca teve receio de pensar pela
sua própria cabeça.
O que mais me
impressiona em José António Saraiva não é apenas a inteligência ou a cultura. É
a coragem.
A coragem de manter a sua independência intelectual, mesmo quando isso lhe trouxe incompreensões, críticas e ataques. Durante décadas foi alvo de contestação por parte de quem confundia divergência com hostilidade. Ainda assim, permaneceu fiel às suas convicções, sem se deixar aprisionar por ortodoxias, modas ou consensos impostos.
Num tempo em
que tantas vozes escolhem o conforto da conformidade, José António escolheu a
liberdade. E essa liberdade, aliada à inteligência, à cultura e à honestidade
intelectual, é uma das razões pelas quais continuará a merecer a minha
admiração.
Já Luís Represas ocupa um espaço muito especial na banda sonora da minha vida.
Na minha
opinião, o Trovante foi a maior banda portuguesa de sempre. Cresci a ouvir as
suas canções, que acompanhavam viagens, encontros familiares, momentos de
alegria e de reflexão. Quando o fim da banda foi anunciado, eu tinha apenas 19
anos. Recordo-me perfeitamente da incredulidade que senti. Parecia impossível
que um projeto tão marcante anunciava o seu fim.
Continuei,
naturalmente, a acompanhar Luís Represas a solo. Tenho todos os seus álbuns (expeto
o último), tal como tenho toda a discografia do Trovante. O seu primeiro álbum
a solo ficou para sempre ligado a uma das memórias mais ternas da minha vida: o
último verão que passei com a minha avó, em Bensafrim, no Algarve. Foi também o
último verão vivido na antiga casa da família. Sempre que oiço aquelas músicas,
regressam-me memórias que pensava adormecidas.
Ao longo dos anos assisti a dezenas de concertos, houve, porém, uma ausência que nunca deixei de lamentar. Em 1998, quando o Trovante realizou um dos concertos mais emblemáticos a pedido especial do então presidente da República Jorge Sampaio, no Parque das Nações, eu tinha bilhete, mas compromissos profissionais impediram-me de estar presente. Foi uma daquelas oportunidades que acreditamos poder recuperar mais tarde.
Décadas depois,
por mero acaso, voltei a pensar nesse concerto e em todos os outros que ainda
gostaria de assistir, mormente ao último deste ano. Que também perdi
Este último vi
na RTP e achei fabuloso, foi mesmo dos melhores e cantaram músicas que há muito
não se ouviam.
Na véspera da morte de Luís Represas, estava na sala a trabalhar e dei por mim, de repente a pensar nos concertos em palco do Luís Represas, seja a solo ou com o Trovante, inconscientemente procurava saber quantos anos ainda teria para continuar a desfrutar da sua voz, da sua presença e da cumplicidade extraordinária que sempre soube criar com os músicos em palco e com o público fora dele.
Na manhã
seguinte acordei a trautear uma canção do Trovante: a “Xácara das Bruxas
Dançando”. Horas depois recebi a notícia da sua morte.
Fiquei
profundamente abalado.
Muitas vezes
pensamos que teremos sempre tempo para agradecer às pessoas que admiramos. Que
haverá sempre outro concerto, outro livro, outra conversa, outra oportunidade.
Mas a vida raramente nos dá essas garantias.
Ao escrever estas palavras descobri algo que desconhecia: um álbum editado durante a pandemia e uma canção “Cinema Estrada” que é um seguimento da mítica “125 Azul”, música que me acompanha há décadas.
Muito se
escreveu sobre esta canção. Muito se especulou sobre o seu significado. Mas
talvez o segredo da sua beleza resida precisamente nisso: cada pessoa encontra
nela um pedaço de si própria. Uma memória. Uma perda. Uma viagem. Um sonho. Ou
uma reflexão sobre o destino inevitável que a todos nos une.
Hoje, ao olhar
para trás, percebo que tanto José António Saraiva como Luís Represas me
ofereceram muito mais do que obras, livros ou canções.
Ofereceram-me companhia ao longo da vida.
Ajudaram-me a pensar, a sentir, a questionar e a compreender melhor o mundo e as pessoas. Estiveram presentes em momentos felizes e em momentos difíceis. Fizeram, e vão continuar a fazer parte daquilo que sou.
E por isso, com
sincera emoção, deixo aqui o meu mais profundo agradecimento.
Muito
obrigado, José António Saraiva.
Muito
obrigado, Luís Represas.
A minha vida ficou mais rica porque os vossos caminhos se cruzaram com o meu.
Gratias ago. Non obliviscar.
Requiescite in pace.
- Obrigado. Não vos esquecerei. Descansai em paz.
Massamá, 21 de agosto
de 2026
José M. T. Gomes