sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Agradecimento enternecido: José António Saraiva & Luís Represas

É a lei inexorável da vida. Não há como enganar, contornar ou ignorar esta realidade: mais cedo ou mais tarde, a nossa hora chegará.

Perante esta certeza, resta-nos a gratidão. Gratidão por aqueles que, através da sua obra, do seu exemplo e da sua humanidade, enriquecem a nossa passagem por este mundo e deixam em nós marcas que o tempo jamais conseguirá apagar.

 José António Saraiva e Luís Represas são duas dessas personalidades na minha vida.

Ambos merecem a minha mais profunda admiração e respeito. Tive o privilégio de os conhecer pessoalmente.

 Escrevo estas palavras como um agradecimento sentido e enternecido. Agradeço-lhes a inspiração que representam, o legado que construíram e a marca indelével que deixaram na minha vida.

De formas diferentes, ambos contribuíram para moldar a minha sensibilidade, a minha humanidade e a consciência da minha própria temporalidade.

 Quero começar por José António Saraiva.

Filho de António José Saraiva, um dos maiores vultos da intelectualidade portuguesa do século XX e, para mim, o mais brilhante escritor que alguma vez li (e que livros fabulosos editou e andam tão esquecidos do público e das escolas…).

José António construiu um percurso singular, recusando viver à sombra do nome do pai. Ao longo da sua vida afirmou-se como jornalista, escritor, diretor de jornais e comentador da política portuguesa, sempre com uma independência de pensamento rara.

Há mais de trinta anos que o acompanho. Vi-o transformar o Expresso numa referência incontornável da comunicação social portuguesa. Assisti ao nascimento do Sol. Li os seus romances, que guardo com orgulho autografados na minha biblioteca. Mas, acima de tudo, acompanhei um homem que nunca teve receio de pensar pela sua própria cabeça.

O que mais me impressiona em José António Saraiva não é apenas a inteligência ou a cultura. É a coragem.

A coragem de manter a sua independência intelectual, mesmo quando isso lhe trouxe incompreensões, críticas e ataques. Durante décadas foi alvo de contestação por parte de quem confundia divergência com hostilidade. Ainda assim, permaneceu fiel às suas convicções, sem se deixar aprisionar por ortodoxias, modas ou consensos impostos.

Num tempo em que tantas vozes escolhem o conforto da conformidade, José António escolheu a liberdade. E essa liberdade, aliada à inteligência, à cultura e à honestidade intelectual, é uma das razões pelas quais continuará a merecer a minha admiração.

Luís Represas ocupa um espaço muito especial na banda sonora da minha vida.

Na minha opinião, o Trovante foi a maior banda portuguesa de sempre. Cresci a ouvir as suas canções, que acompanhavam viagens, encontros familiares, momentos de alegria e de reflexão. Quando o fim da banda foi anunciado, eu tinha apenas 19 anos. Recordo-me perfeitamente da incredulidade que senti. Parecia impossível que um projeto tão marcante anunciava o seu fim.

Continuei, naturalmente, a acompanhar Luís Represas a solo. Tenho todos os seus álbuns (expeto o último), tal como tenho toda a discografia do Trovante. O seu primeiro álbum a solo ficou para sempre ligado a uma das memórias mais ternas da minha vida: o último verão que passei com a minha avó, em Bensafrim, no Algarve. Foi também o último verão vivido na antiga casa da família. Sempre que oiço aquelas músicas, regressam-me memórias que pensava adormecidas.

Ao longo dos anos assisti a dezenas de concertos, houve, porém, uma ausência que nunca deixei de lamentar. Em 1998, quando o Trovante realizou um dos concertos mais emblemáticos a pedido especial do então presidente da República Jorge Sampaio, no Parque das Nações, eu tinha bilhete, mas compromissos profissionais impediram-me de estar presente. Foi uma daquelas oportunidades que acreditamos poder recuperar mais tarde.

Décadas depois, por mero acaso, voltei a pensar nesse concerto e em todos os outros que ainda gostaria de assistir, mormente ao último deste ano. Que também perdi

Este último vi na RTP e achei fabuloso, foi mesmo dos melhores e cantaram músicas que há muito não se ouviam.

Na véspera da morte de Luís Represas, estava na sala a trabalhar e dei por mim, de repente a pensar nos concertos em palco do Luís Represas, seja a solo ou com o Trovante, inconscientemente procurava saber quantos anos ainda teria para continuar a desfrutar da sua voz, da sua presença e da cumplicidade extraordinária que sempre soube criar com os músicos em palco e com o público fora dele. 

Na manhã seguinte acordei a trautear uma canção do Trovante: a “Xácara das Bruxas Dançando”. Horas depois recebi a notícia da sua morte.

Fiquei profundamente abalado.

Muitas vezes pensamos que teremos sempre tempo para agradecer às pessoas que admiramos. Que haverá sempre outro concerto, outro livro, outra conversa, outra oportunidade. Mas a vida raramente nos dá essas garantias.

Ao escrever estas palavras descobri algo que desconhecia: um álbum editado durante a pandemia e uma canção “Cinema Estrada” que é um seguimento da mítica 125 Azul”, música que me acompanha há décadas.

Muito se escreveu sobre esta canção. Muito se especulou sobre o seu significado. Mas talvez o segredo da sua beleza resida precisamente nisso: cada pessoa encontra nela um pedaço de si própria. Uma memória. Uma perda. Uma viagem. Um sonho. Ou uma reflexão sobre o destino inevitável que a todos nos une.

Hoje, ao olhar para trás, percebo que tanto José António Saraiva como Luís Represas me ofereceram muito mais do que obras, livros ou canções.

Ofereceram-me companhia ao longo da vida.

Ajudaram-me a pensar, a sentir, a questionar e a compreender melhor o mundo e as pessoas. Estiveram presentes em momentos felizes e em momentos difíceis. Fizeram, e vão continuar a fazer parte daquilo que sou.

E por isso, com sincera emoção, deixo aqui o meu mais profundo agradecimento.

Muito obrigado, José António Saraiva.

Muito obrigado, Luís Represas.

A minha vida ficou mais rica porque os vossos caminhos se cruzaram com o meu.

Gratias ago. Non obliviscar. Requiescite in pace. - Obrigado. Não vos esquecerei. Descansai em paz.

  

Massamá, 21 de agosto de 2026

José M. T. Gomes

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário