sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A barca da Esperança

Não há lua que me alumie o caminho
No penedo da Roca há escuridão
Na barca não vais sozinho
Desvenda a rota de um toque de mão

Na Roca avisto a escuridão na água
O Farol denuncia ondas de tormento
Para lá do Adamastor
Quantas marés de mágoa?
Quantas enchentes de sofrimento?

Na Aguda o mar agita-se pela aurora
A areia salgada contou-me um segredo
Disse-me que és forte na tua rota
Salgou-me a alma para que não tivesse medo

O futuro será uma memória
De uma barca que navegou
Assim se faz a nossa história
De alguém que por amor chorou


Para o meu filho Rodrigo que Amo muito.
Força campeão!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Para o meu filho Rodrigo

Não há dor que se compare
Nem angústia que se esmoreça
Nem conforto que ampare
Pelo desejo que o abraço aconteça

A cada segundo penso em ti
O tempo parou lá fora
Cá dentro passou uma eternidade
Um segundo é uma demora

Falei hoje com a Lua
E ela contou-me um segredo
Olharia por ti esta noite
Para que não tivéssemos medo

Confio na ventura do Levante
E na noticia da alvorada
Dorme um soninho descansado
Que o advento da madrugada
Espera um beijo e um abraço

Bem-vindo Filho,
Amo-te Muito,

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Quem oculta a «Face Oculta»?

Nunca em Portugal tivemos um primeiro-ministro abarcado em tantos casos e escândalos como José Sócrates. Os casos que envolvem o primeiro-ministro sucedem-se em catadupa, assim que acaba um, logo a seguir surge outro, e assim sucessivamente: desde a controvérsia licenciatura, aos projectos da Cova da Beira, passando pelo Freeport, etc., apanhamo-lo agora em várias conversas com Armando Vara suspeito no escândalo «Face Oculta».
Em todos estes casos há um denominador comum: a vitimização do primeiro-ministro em relação à oposição, acusando-a de espionagem e insidia politica.
Não sou advogado, não sou jurista nem magistrado. Por imperativo académico tenho uma visão panorâmica daquilo que é o Estado e o Direito, e parece-me que há esclarecimentos a prestar à opinião pública sobre as escutas que envolveu José Sócrates e Armando Vara.
Todavia, é preciso tomar consciência que a sociedade mediática está a instituir novos tribunais populares, em que os julgamentos se realizam nos jornais, nas televisões, blogues, etc., em que os comentadores funcionam como advogados de acusação e defesa, e onde o juiz é o povo sedento de sangue – que normalmente condena e não absolve. Evitando cair nesses julgamentos sumários, verifico, no entanto, que desacertos grosseiros se vão cometendo com total complacência e impunidade. Mas o primeiro-ministro também não está acima da lei.
Armando Vara como suspeito no caso «Face Oculta» estava sob escuta e, por simples casualidade José Sócrates foi colhido em várias escutas durante vários meses, assim como seria outro cidadão que falasse com Vara. Segundo a interpretação de dois magistrados de Aveiro que conduziam o processo, as escutas continham informação susceptível de actos ilícitos de atentado ao Estado de Direito cometidos pelo primeiro-ministro. E, por esse motivo enviaram as escutas para o Procurador-geral da Republica, Pinto Monteiro, que as ouviu e posteriormente enviou-as para o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha de Nascimento. O primeiro (nomeado pelo Presidente da Republica sob proposta do Governo) arquivou o processo com celeridade extraordinária para a justiça portuguesa, o segundo considerou as escutas inválidas.
Se não houvesse indícios fortes de algum ilícito, haveria motivo para tanta vozearia?
Alguém acredita que a oposição tem como desígnio forjar e manipular a justiça contra o primeiro-ministro?
Alguém acredita que os magistrados do poder judicial estão ao serviço da oposição, com a intenção de derrubar o primeiro-ministro?
Eu não acredito!
A reacção às acusações do núcleo duro de José Sócrates, de alguns notáveis socialistas (como Mário Soares, Almeida Santos, Manuel Alegre, etc.) e de alguns idiotas úteis são surpreendentes: para estes correligionários o Todo-Poderoso primeiro-ministro é impoluto, insigne, uma vítima política e, por isso, tem de ser defendido, e o limite é o absurdo; vêm a terreiro dar o corpo às balas em sua defesa; e acusam com a maior desfaçatez a diatribe insidiosa e o aproveitamento político da oposição.
Algumas dessas afirmações lançam suspeitas inaceitáveis à justiça, sendo uma ingerência à separação de poderes, um dos maiores pilares de um Estado de Direito Democrático.
A defesa do primeiro-ministro nestes trâmites é, por isso, aberrante e arrebatada, o debate de sexta-feira na Assembleia da Republica é bem paradigmático.
Com tantos casos a envolver o nome do primeiro-ministro e justificações a trouxe-mouxe e desastradas, é normal que paire a desconfiança em relação ao seu carácter. Acresce ainda, que José Sócrates mentiu no exercício das suas funções de primeiro-ministro na Assembleia da Republica. Quando questionado se sabia da negociação entre a PT e a Prisa no caso TVI mostrou surpresa e afirmou nada saber sobre o assunto. E quando Manuela Ferreira Leite assegurou não ser possível o desconhecimento do primeiro-ministro sobre o negócio, todos lhe caíram em cima, e afinal, ela tinha razão.
A publicação das escutas parece-me abusiva, nem tão-pouco pretendo escutar conversas privadas entre dois cidadãos. Mas, quer o presidente do Supremo Tribunal de Justiça quer o procurador-geral da República não cumpriram, um preceito constitucional que tem muita importância: o artigo 48º da Constituição. Ora, esta situação não foi cumprida pelas mais altas instâncias do sistema de justiça – Pinto Monteiro e Noronha de Nascimento. Ainda vão a tempo de dar uma explicação cabal à opinião pública sobre o que fizeram, e porque o fizeram, sem terem de violar o segredo de justiça ou publicar o teor das escutas. Podem perfeitamente explicar tudo o que não implique a violação do segredo de justiça salvaguardando os mais elementares direitos individuais – a privacidade.

CAPÍTULO II
Direitos, liberdades e garantias de participação política
Artigo 48.º
(Participação na vida pública)

1. Todos os cidadãos têm o direito de tomar parte na vida política e na direcção dos assuntos públicos do país, directamente ou por intermédio de representantes livremente eleitos.
2. Todos os cidadãos têm o direito de ser esclarecidos objectivamente sobre actos do Estado e demais entidades públicas e de ser informados pelo Governo e outras autoridades acerca da gestão dos assuntos públicos.
PS – O silêncio do Presidente da Republica, o garante do normal funcionamento das instituições democráticas é ensurdecedor!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O clássico

Durante esta semana observei um consenso generalizado na opinião pública do mundo futebolístico, da importância que reveste o clássico de amanhã na carreira desportiva do Sporting esta época. Este clássico para o Sporting é o «tudo ou nada». O futuro desta época depende deste jogo.
Ora, será mesmo assim?
Penso que não. O Sporting iniciou a época a praticar um futebol deplorável, exibições escassas de competitividade, apáticas e, a agravar tudo isto, com resultados desportivos desastrosos. À distância de onze pontos de Benfica e Braga, e a seis do Porto, parece evidente que uma vitória dos leões é absolutamente crucial, as opiniões têm sido unânimes. Todavia, o adepto do Sporting não se ilude com esta época, não tem grandes expectativas; para o aficionado a equipa bateu no fundo, pior é impossível. Por isso, Carlos Carvalhal está livre da pressão do clássico de amanhã, se ganhar, reconcilia os associados com a equipa, se perder, terá muito tempo para mostrar um bom trabalho, e parece-me que vai fazê-lo com competência.
Ao contrário do que se tem dito, o Benfica tem mais a perder que o Sporting. Começou muito bem a época, joga um futebol atractivo, joga um futebol bonito, bem desenhado, emotivo, empolga o adepto e simpatizante e, ainda por cima, com um ímpeto de concretização absolutamente impressionante, marca golos que se farta, impondo goleadas históricas – como a do Everton para a Liga Europa. Mas, nos últimos jogos o Benfica tem sofrido alguns revezes, como a derrota em Braga, a vitória sofrida contra a Naval e a eliminação da taça de Portugal, no Estádio da Luz perante o Vitória de Guimarães.
Uma derrota do Benfica em Alvalade, abalará a confiança da equipa e põe a descoberto as suas fragilidades – que as tem – e, coloca em causa todo o edifício do futebol benfiquista, ante um Sporting pretensamente esfrangalhado.
Portanto, o Sporting, para este clássico nada tem a perder, a não ser a despeito de perder um jogo contra o eterno rival; já o Benfica… tem a «carne toda no assador».
PS1 – A iniciativa do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, em juntar o presidente do Sport Lisboa e Benfica, Luis Filipe Vieira e o Presidente do Sporting Clube de Portugal, José Eduardo Bettencourt para promover o uso de transportes públicos, e apelar ao Fair-Play, é um exemplo a seguir, e um acto de urbanidade na promoção do espectáculo, nomeadamente o futebol.
PS2 – Força Benfica!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Falácia da abertura do casamento homossexual

Durante alguns anos tive uma presença muito assídua na cidade de Setúbal, uma cidade de fascínio peculiar, situada no encrave entre a Serra da Arrábida e a Península de Tróia. Tem óptimos restaurantes, praias maravilhosas, bons bares e discotecas, como o «Seagull», infelizmente desaparecida, um das melhores do país dos anos 80 e meados de 90, localizada em plena Serra da Arrábida com uma magnífica açoteia sobre o mar, simplesmente deslumbrante. Não é difícil gostar de Setúbal e da paisagem natural que a envolve. Dado a sua proximidade à cidade de Lisboa, Setúbal foi sempre uma espécie de tebaida às gentes vindas de outras paragens, nomeadamente da Grande Lisboa, Sul do Sado e alguns estudantes universitários.
O meu primo Hugo, foi durante vários anos o barman-Mor do Bar - Discoteca «Conventual», um antigo convento lindíssimo transformado em bar e discoteca, junto à avenida Luísa Todi, a principal artéria da cidade. E foi ele o principal responsável pela minha presença tão acentuada na cidade ao longo de vários anos.
Como o «Conventual» fechava habitualmente às 04:00h, funcionava como um ponto de encontro de clientes vindos de toda a parte, clientes seleccionados pelo meu queridíssimo e saudoso amigo Fernando – um abraço eterno para ti amigo –, alturas houve, em que a maioria dessas pessoas tinha uma orientação sexual diferente da minha, eram gays e lésbicas, decorria o ano de 1997.
Claro que fiz amizades com algumas dessas pessoas, participei em inúmeros eventos sociais durante vários anos. Os mais chegados desabafavam comigo os seus dramas pessoais do dia-a-dia: ocultavam o que sentiam, o que gostavam, despojavam a sua própria identidade para escapar à sentença moral e ao dedo inquisitório da sociedade. Se houver algum ser humano no meu país, em que lhe seja sonegado algum direito com base na orientação sexual, estarei incondicionalmente a seu lado, e lutarei para que tenha acesso a esse mesmo direito. Acontece porém, que a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo nada tem a ver com igualdade de direitos, aliás, muitas lésbicas e homossexuais não estão de acordo com a alteração da legislação sobre o casamento.
Em Portugal esta contenda tem sido colocada de forma falaciosa: a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, não deve ter como propósito o acolhimento da homossexualidade ou, um combate contra a homofobia. A homossexualidade é tão antiga como a humanidade, na Antiga Grécia, as prostitutas eram senhoras ilustres, e não havia nenhum juízo moral contra a homossexualidade mas, nem por isso, se legalizou o casamento. Há um radicalismo perigoso que ignora a história da Humanidade. Para alguns “iluminados” tudo que nos foi legado deve ser proscrito, posto em causa como se a Humanidade principiasse com a nossa existência e não o contrário; a Humanidade vai muito além das convenções, ideologias, legislações, regimes políticos, religiões, aforismos e atavismos.
O casamento é uma construção social natural e não algo que flutue ao sabor de quem legisla. Por isso mesmo, em França, o Governo socialista de Lionel Jospin decidiu em 1999 introduzir o Pacto Civil de Solidariedade. Este pacto estipula que quaisquer duas pessoas, independentemente do sexo, podem estabelecer um pacto de união (desde que o registem na conservatória) que lhes confere todas as garantias do casamento, excepto a de adopção de filhos Semelhante à Lei 7/2001, que consagra na nossa ordem jurídica a União de Facto alargada a relações entre pessoas do mesmo sexo.
É juridicamente injustificável discriminar positivamente a união homossexual no momento de alargar as fronteiras do casamento, face a outras possibilidades lógicas de união não autorizadas na lei. A justificação para a proibição de incesto é a eventualidade de dele resultar uma descendência genética anómala. Já a premissa monogâmica assenta numa justificação cultural e não biológica. A poligamia no Ocidente carece de legislação por não ser suportada por cânones religiosos, ao contrário da lei islâmica, e exprime uma inadmissível assimetria entre homens e mulheres.
Os defensores do casamento gay deverão, em nome do princípio da igualdade dos direitos, defender toda a união incestuosa de que não resulte uma descendência geneticamente enfraquecida e toda a união poligâmica ou poliamorosa, que não promova assimetria entre sexos.
Legalizar o casamento gay implica negar a exclusividade do casamento tradicional tal como existe, isto é, uma união entre duas pessoas de sexos opostos e sem laços consanguíneos. Ora, se a legalização for aprovada, equiparando aquela união a esta, será logicamente forçado a não distinguir entre o direito de dois indivíduos do mesmo sexo, não aparentados entre si, a casar e adoptar filhos, e o direito de três indivíduos consanguíneos e do mesmo sexo à união matrimonial e à adopção. A legalização do casamento homossexual exige, portanto, a regulamentação ao extremo como é apanágio das ideologias radicais, nomeadamente, o casamento homossexual incestuoso poligâmico.
Se colocarmos em causa um dos critérios da definição de casamento (união entre sexos opostos), então que justificação lógica haverá para não descartar os outros dois – união de dois indivíduos, não consanguíneos?
O alargamento das fronteiras do casamento resultará, inexoravelmente na sua abolição, e o mais curioso, é pensar-se que isto significa um progresso e não um retrocesso civilizacional.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Saída de Paulo Bento do Sporting

Ao longo dos últimos três anos tenho criticado o desempenho de Paulo Bento como treinador principal da equipa sénior do Sporting. Ao contrário do que muitos afirmam, creio que foi manifestamente incompetente, teimoso e por vezes mesquinho na forma como lidou com alguns jogadores, muitos têm metade da sua idade, no entanto, Paulo Bento comportou-se como se tivesse metade da idade dos garotos. Em vez de adoptar uma pedagogia assertiva e construtiva de forma a ajudá-los a crescer como homens e jogadores, valorizando assim os activos do Sporting; nalguns casos fez exactamente o contrário, teve atitudes verdadeiramente lamentáveis, alimentou o orgulho, bafejou o ego em prejuízo dos interesses do clube, delapidando activos da equipa principal. Com um relacionamento difícil, uma táctica previsível e imutável, aliado à obstinação em alterar fosse o que fosse, causa surpresa o tempo que se manteve à frente do Sporting. Olhando para todos os treinadores da superliga, qualquer um deles faria de longe, muito melhor que Paulo Bento, e se vier a treinar em Portugal e na Superliga, tenho dúvidas do seu sucesso, porque simplesmente não tem capacidade para treinar competentemente uma equipa de futebol sénior do principal escalão nacional ou estrangeiro.

Há duas questões que têm sido colocadas na opinião pública desde o inicio da presente temporada: o treinador do Sporting é competente mas não tem jogadores à altura de envergar a camisola do Sporting; ou o Sporting tem bons jogadores e o treinador não está à altura de pô-los a jogar um futebol atractivo, de ataque, que posso almejar as tão desejadas vitórias.

Sou da opinião que o Sporting tem muitos e bons jogadores, quase todos são internacionais pelos seus países. É da competência do treinador extrair a qualidade de cada jogador em prol da equipa. Para isso trabalha-se diariamente e, parece-me que Paulo Bento trabalha a trouxe-mouxe durante a semana, pois, a equipa não tem fio de jogo, os jogadores por vezes ocupam os mesmos espaços atrapalhando-se mutuamente.

Paulo Bento beneficiou – e bem – duma conjuntura que lhe foi invulgarmente favorável: ascendeu à liderança da equipa principal por estar no sítio certo à hora certa; beneficiou do desvario do Benfica nas últimas épocas; aproveitou a orfandade do Braga desde a saída do Jesualdo Ferreira; o segundo lugar era suficiente para entrar directamente na Liga dos Campeões. Ora, este quadro global alterou-se radicalmente: o Braga renasceu com Domingos Paciência, aproveitando bem o trabalho feito da época passada preconizado por Jorge Jesus; este acordou o Gigante Adormecido Benfica, que esta temporada vem jogando um futebol de grande qualidade, espalhando magia e espectáculo coroado com goleadas atrás de goleadas; o segundo lugar não carimba o passaporte para a Liga dos Campeões, portanto, as dificuldades aumentaram sobejamente. Por isso, apesar das pouquíssimas mexidas do Sporting em relação aos outros rivais, não me surpreendeu as paupérrimas exibições na decorrente época. Aliás, tem sido assim nos últimos anos.

É preciso ter memória: mesmo com alguns bons resultados que não se pode olvidar, o Sporting jogou quase sempre um péssimo futebol, demasiadas vezes em esforço, sofrível, sem chama nem alegria, sem magia nem encanto, facto aliás, que Paulo Bento sempre admitiu ao longo das épocas, mas nunca conseguiu alterar o rumo dos acontecimentos. A minha critica a Paulo Benta apenas diz respeito ao âmbito das suas competências, nada mais.

Não tenho dúvidas que seja um profissional exemplar, esforçado, dedicado, e que deu o melhor à equipa e ao Sporting, apesar do seu narcisismo em relação aos jogadores. O adágio popular diz: «quem dá o que tem a mais não é obrigado». Uma laranjeira só pode dar laranjas, uma macieira só pode dar maçãs, é da sua natureza, não se pode exigir mais. Não é legitimo pedir a uma laranjeira que dê maçãs, assim como, também não é legitimo pedir a Paulo Bento que ponha a equipa a produzir futebol de qualidade; ele faz o que pode e sabe, assim sendo, o Sporting só pode jogar da forma a que nos habituou – a antítese do espectáculo.

No entanto, é absolutamente lamentável a forma como os adeptos se manifestaram e insultaram o treinador após um jogo das competições europeias – em que praticamente está qualificado. É bom lembrar a esses adeptos e muitos sócios que José Eduardo Bettencourt alcançou 90% dos votos e Paulo Bento foi a sua bandeira eleitoral, portanto, o treinador foi sufragado por larguíssima maioria no reino do leão.

Mas, o treinador não é o principal problema, foi antes uma consequência de uma direcção negligente e uma administração totalmente incapaz. José Eduardo Bettencourt comporta-se como simples adepto, não assume a responsabilidade de presidente de uma grande instituição como é de facto o Sporting. A conferência de impressa sobre a despedida de Paulo Bento foi risível.

O Sporting transformou-se numa coutada gerida por aristocratas pseudo-intelectuais que vivem na manjedoura do clube e, que tanto, mas tanto dano lhe tem causado, e isso, não é culpa de Paulo Bento.

Nota: o Sporting volta a ser candidato ao título nacional.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Maitê Proença

Recebi há dias um e-mail, que continha um vídeo divulgado no sítio do youtube, em que a célebre actriz e escritora Maitê Proença escarnecia de Portugal e dos Portugueses. Não visualizei a totalidade do vídeo, mas o pouco que vi causou-me alguma repulsa, quer pela ignorância da actriz em relação a Portugal mas, principalmente, quando ela cospe despudoradamente para uma fonte no Mosteiro dos Jerónimos – património da Humanidade. Ignorei o e-mail não lhe dando importância alguma.
Este vídeo foi gravado em Portugal no ano de 2007 para um programa televisivo brasileiro «sai justa», em que a actriz participa com outras três mulheres. Um programa pretensamente de humor mas, ao que parece é estúpido e néscio.
Acontece porém, apesar de ignorar o e-mail, o impacto mediático tomou proporções verdadeiramente inusitadas, passou da blogosfera para os principais noticiários em horário nobre da televisão portuguesa. Nunca pensei que este «caso» tivesse um impacto mediático tão acicatado.
A estupidez é bem mais atraente que a inteligência, enquanto esta tem os seus limites a outra não tem, por isso, certas reacções de pessoas inteligentes causam-me estranheza, como por exemplo: pretender proibir a entrada da actriz em território nacional – que parolice!
A multiplicidade de opiniões da blogosfera roça o ridículo e a xenofobia em relação aos brasileiros, e temo que possa abrir uma lacuna diplomática entre dois países que se querem bem.
Tenho amigos brasileiros, tanto em Portugal como no Brasil. Trabalhei em 1999 na cidade de São Paulo e, conheci várias regiões do Estado São Paulo, tenho portanto, uma ideia dos brasileiros que nada se assemelha à atitude de Maitê Proença. Os brasileiros adoram os Portugueses, têm um enorme orgulho neste pequeno país e na nossa história. Aliás, surpreendeu-me o elevado conhecimento dos brasileiros em relação à nossa história – que também em parte é a deles. É verdade que contam anedotas a nosso respeito, e nós em relação aos alentejanos? Não brincamos com eles?
Não pretendo defender Maitê Proença, mas atribuir-lhe a importância que lhe estão a dar, parece-me no mínimo excessivo, e é arriscarmos a dar-lhe razão. Contra a estupidez e a ignorância não há melhor que o humor, e se de repente os alentejanos ficassem ofendidos com as anedotas contadas a seu respeito? Como seria este país? Mas não, eles têm muito humor, aqui fica uma anedota de alentejanos:
«Um alentejano que tinha uma tasca e recebe a visita de um lisboeta que perguntou se ali também serviam cachorros.
“Ó amigo, nós aqui servimos toda a gente”, respondeu o alentejano.»
Para acabar, dedico esta a Maitê Proença:

«Uma actriz brasileira escarneceu certo dia na presença de um ilustre português. “O vosso país é tão estreito! Quando se levanta uma lebre, onde a vão apanhar?” Resposta imediata do português: “Ao Brasil, minha Senhora!”»

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Pactos de Regime

Na crónica anterior abordei a importância da estabilidade política para o desenvolvimento das sociedades, mas não cuidei de apresentar nenhuma solução para esse problema. Para o regime político português, a meu ver, a melhor solução seria a maioria absoluta, quer de um só partido ou em coligação, mas os resultados eleitorais últimos ditaram uma maioria relativa e, não se vislumbra nenhuma coligação.
Como garantir então a estabilidade política e a governabilidade do país, para evitar constantes ziguezagues que inviabilizam a solução dos problemas?
Estes últimos 36 anos após o 25 de Abril, recuámos talvez uns 40 em relação a Espanha, e na altura da Revolução dos Cravos estávamos à frente do país vizinho. E isto sobretudo porque, enquanto a Espanha teve um Chefe do Estado e quatro chefes do Governo e apenas três chefes de Governo a partir de 1982 – Felipe González, José Maria Aznar e José Luis Zapatero – com grande destaque para o primeiro, Portugal teve cinco Chefes do Estado – António Spínola, Costa Gomes, Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva – e, - pasme-se! – 18 governos. E cada Governo que entra em funções tem por hábito pôr em causa o trabalho feito pelo Governo cessante. Parece até ter como ponto de honra fazer as coisas de outra maneira – para tornar claro que o Governo anterior era mau e que a mudança era necessária e, por isso, valeu a pena a mudança, a ruptura.
É evidente que, deste modo, é impossível atingir quaisquer objectivos. Está-se sempre, a partir do zero. O único modo de remediar isto é através da concretização de pactos de regime que garantam políticas de continuidade em certos sectores. Os partidos políticos têm a obrigação perante o país de dialogarem uns com os outros, têm de pôr de lado não aquilo que os divide, mas o que eventualmente os possa unir. O rumo errático em que Portugal se depara – colapso da economia, desemprego galopante, aumento do défice, perda de competitividade, etc., – obriga a chamada à responsabilidade de todos os partidos políticos com assento parlamentar. Não basta à oposição criticar e obstar as políticas que urgem ser implementadas, sob pena de agravar o nosso atraso em relação aos países da zona euro.
A educação está neste caso: não se pode andar a mudar constantemente de política educativa. A saúde está neste caso. A justiça também. E noutras áreas mais circunscritas – como a redução do défice orçamental, quanto a mim, um dever absolutamente decisivo para o futuro do país.
Elige viam optimam [Grynaeus] – Escolham o melhor caminho.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A importância da estabilidade política

O resultado das últimas eleições legislativas ganhas pelo Partido Socialista com maioria relativa, aliado ao arrufo político - institucional entre Governo e Presidente da Republica, suscita algumas preocupações – fundamentadas – dos analistas e comentadores sobre a governabilidade futura e a estabilidade política do país. Muitos prognosticam que este Governo não vai completar esta legislatura e, é bem provável que tenham razão. Desde o 25 de Abril apenas um Governo de maioria relativa – o primeiro de António Guterres – conseguiu completar uma legislatura. E, certamente ainda está presente na memória dos Portugueses a negociação com o deputado Daniel Campelo para que um Orçamento de Estado pudesse ser aprovado na Assembleia da Republica.
Defendo que a melhor solução dentro do nosso regime político são as maiorias absolutas, pois, será a forma mais eficaz do Governo pôr em prática o programa eleitoral sufragado pelos Portugueses. Porém, as maiorias absolutas devem ser legitimadas a políticos competentes, humildes, com apego à «causa pública», de não governar para as estatísticas nem pensar na manutenção do poder, agir segundo o postulado do imperativo categórico do filósofo Immanuel Kant. Julgo que não temos no panorama político partidário pessoas com tais virtudes, porque os próprios partidos políticos fecham-se ao exterior, afastando os mais competentes, sonegando as vozes daqueles que pensam por si, que são independentes, com excepção das personalidades que têm peso político, Manuel Alegre é um exemplo paradigmático.
Há quem pergunte se a estabilidade é um fim ou um meio – com a intenção óbvia de concluir que, sendo apenas um meio, pode e deve ser posta em causa sempre que valores «mais altos» se levantem. Esta forma de colocar o problema é falaciosa. A verdade é que, como a História abundantemente mostra, sem estabilidade política não se constrói nada. Assim, apesar de ser um meio, a estabilidade é um requisito indispensável para atingir qualquer objectivo. É a base sobre o qual se edifica o desenvolvimento político e económico. Sem estabilidade política, estamos sempre a voltar ao princípio. Ao ponto de partida.

Vamos supor que o caminho de Lagos até ao Porto é o objectivo do Governo, o seu programa eleitoral. E, para isso, o Governo põe em prática um certo número de medidas políticas para lá chegar. Alcançado o ponto A verifica que o caminho traçado foi errado, as medidas tomadas não foram as melhores para atingir o objectivo pretendido – que é chegar ao Porto. Normalmente o que acontece em Portugal, é fazer tábua rasa do tudo quanto se fez e começar de novo, voltar ao ponto de partida. Mas chegando ao ponto B conclui-se novamente que estas medidas ainda não são suficientes para chegar ao Porto, e com o ponto C passa-se a mesma coisa. Continuamos no ponto de partida, sem que nada se tenha construído, gastou-se tempo, recursos, medidas avulsas, expectativas frustradas e ficou tudo na mesma, nalguns casos poderemos até regredir: ao invés de ficarmos em Lagos ficamos sem rumo e sem norte a ver navios ao largo de Marrocos.
Sem estabilidade política, sem medidas de continuidade, com sucessivas quedas de Governos antes do final dos seus mandatos, o progresso do país gangrena. Repare-se que nos últimos cento e nove anos, em Democracia, apenas três mandatos foram concluídos, isto é, 12 anos de estabilidade em regime democrático – na 1ª república não houve nenhum Governo que levasse um mandato até ao fim, nem sequer a meio.

Ao contrário das políticas de ruptura, as politicas de continuidade não desmancham tudo quanto foi feito, corrige-se. Assim, chegando ao ponto A e tendo noção que esse não é o melhor rumo para chegar ao Porto, fazemos uma correcção na trajectória em direcção ao ponto B. Mesmo assim, se não for suficiente, corrigimos novamente até ao ponto C.
Ao fim de algumas correcções de percurso sem voltar ao ponto de partida, chegámos ao Porto, atingimos o nosso objectivo – quando no exemplo anterior, ao fim do mesmo tempo estávamos muitíssimo longe, ainda estávamos em Lagos. Isto ilustra de forma rudimentar as enormes vantagens das políticas de continuidade sobre as politicas assentes em constantes rupturas – palavra mais usada nos discursos políticos de Francisco Louçã. As rupturas, em política, são por vezes necessárias, mas devem ser entendidas como situações excepcionais. É errado mudar tudo quando muda a maioria no poder: em muitos casos, o que se perde, é muito mais do que se ganha, mesmo admitindo que se ganha alguma coisa, o que frequentemente não acontece. A mudança radical sempre que o Governo muda, significa o continuo regresso ao ponto de partida, o permanente retorno à estaca zero. Ora, a evolução e o progresso só se dão, acrescentado valor ao que existe.
O grande problema nacional é que salta de revolução em revolução sem conseguir encontrar um rumo – e volta sempre ao princípio. O país não aposta no esforço contínuo, na pedra posta em cima de outra pedra, mas na ruptura que deita tudo abaixo. Foi a revolução republicana – que nos propunha uma República redentora. Foi o 28 de Maio – que afirmou o primado da ordem. Foi o 25 de Abril – que apontou como remédio a democracia. Mas os problemas do país parecem ser sempre os mesmos.
O que nos falta, em grande parte, é o sentido da continuidade – que só a estabilidade permite. Em ambiente de instabilidade não se investe, não se criam hábitos de convivência política, o ambiente é de desconfiança. Os investidores não se sentem estimulados a investir por falta de confiança – esta evidência é leccionada em qualquer curso que tenha a disciplina de Introdução à Economia. Os investidores e os empresários são levados a esperar por melhores dias, por novos Governos ou outra estabilidade política. Por outro lado, como se parte do princípio de que o Governo não irá durar um mandato completo, a oposição é estimulada a agitar-se para conseguir derrubá-los antes de tempo – mormente através da influência que o Partido Comunista Português tem nos sindicatos, como se isso não bastasse, temos tido nos últimos nove anos a demagogia tresloucada de Francisco Louçã.
Ou seja: a instabilidade atrai instabilidade. E o mesmo vale para os partidos e os poderes autárquicos: como se calcula que os lideres não conseguirão cumprir os mandatos completos, os opositores internos agitam-se para os derrubar a meio dos mandatos. E assim sucessivamente, entra-se num ciclo vicioso. Não é difícil perceber que a instabilidade política fomenta a todos os níveis a deslealdade, oportunismo, o aventureirismo. E, como não se sabe qual irá ser o dia de amanhã, aquilo com que se poderá contar, cai-se no imediatismo, no tacticismo puro e desleal. Tudo se esgota no momento, não se pensa a prazo, não se planeia o futuro – porque o futuro não existe, não está no horizonte dos políticos.
Os Governos são tentados a pôr em prática medidas de curtíssimo prazo, porque nunca sabem se chegarão ao fim do período para o qual foram eleitos. No melhor dos casos projectam a sua acção para vencer as próximas eleições. Isso impede as políticas de longo alcance assentes numa visão ulterior, de grande escala, não comprometida nem dependente da circunstância.
Como escrevia um autor americano «os ciclos eleitorais tornam as opções estratégicas míopes»

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Politica espectáculo!

“Não se governam nem se deixam governar”, afirmaram os Romanos quando chegaram à Península Ibérica há mais de 2000 anos, este aforismo continua extraordinariamente actual e verdadeiro.
A pouco mais de uma semana das eleições legislativas continuamos a assistir diariamente a discussões políticas estéreis, inócuas, envolta em espectáculos mediáticos de corrupção, intriga, mentiras...
Os políticos não se respeitam nem se dão ao respeito, por isso, descredibilizam a política e a “causa” pública.
Os políticos não verbalizam a verdade aos Portugueses, porque se o fizerem não colhem votos. Prometem com convicção e confiança o que não podem cumprir. Mentem despudoradamente.
E porquê?
Porque querem o Poder.
E querem o Poder para quê?
Desenganem-se quem julga que é para resolverem os problemas do país. Não! É para tomarem conta dos dinheiros do Estado, instalarem-se bem na vida, fazerem os negócios com os amigos e familiares.
Os partidos afastam os melhores elementos porque corrompem as virtudes individuais excomungando os que não alinham na lógica e dinâmicas partidária.
Falta seriedade na política, e os problemas de Portugal só podem ser resolvidos com seriedade e não com espectáculos circenses.
Os líderes partidários são incapazes de se entenderem exceptuando nas votações na Assembleia da Republica para a Lei do financiamento partidário em que o silêncio putrefacto e sepulcral não desperta nenhuma consciência indolente. No futuro, haverá políticos que serão julgados no pelourinho da História pelos danos que provocaram (e vão continuar) a Portugal e às gerações vindouras.
Sempre defendi estabilidade no sistema político, e para haver estabilidade considero que as maiorias absolutas são fundamentais para o Governo pôr em prática o seu programa. Mas atenção: isto serve para políticos competentes, sérios, humildes e, infelizmente não temos gente com essas características, e os que têm, actualmente dificilmente se metem na política. Espero sinceramente que os Portugueses não dêem Maioria Absoluta a nenhum partido.
Não houve ninguém nesta campanha eleitoral que apresentasse propostas concretas, exequíveis e sérias no combate à corrupção e um país corrupto não é viável.
In qua potestate haec facis? – Com que autoridade fazes essas coisas?

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

«Comentadeiros» da bola

O jogo do Benfica ante o Vitória de Setúbal na passada segunda-feira foi um hino ao futebol de ataque, agraciado com 8 golos (alguns de grande classe). Como benfiquista, claro que foi um deleite ver o meu clube jogar tão bem e marcar tantos golos num só jogo, apesar da genuína simpatia que tenho pelo Vitória.
Mas, este jogo despertou-me um outro interesse, um outro atractivo: que foi observar o comportamento de uma equipa orientada pelo actual treinador do Setúbal, ex-adjunto de Jesualdo Ferreira no F.C Porto e «comentadeiro» no programa Domingo Desportivo na RTP1.
Há muito que o futebol está inventado.
O futebol é um desporto simplicíssimo de se entender.
No entanto, nos últimos anos têm surgido nos mídia alguns «comentadeiros» a que chamo de «arquitectos da bola» como o Carlos Azenha; que chegam ao absurdo de pararem uma imagem de futebol corrido e, dissertarem as mais mirabolantes tácticas e movimentações de jogadores das linhas diagonais e entre-linhas, pressão alta e pressão baixa, como se o futebol fosse um algoritmo ou um jogo de bilhar. Quando comentam antes dos jogos normalmente falham sempre as suas previsões e as suas tácticas.
A agravar esta questão, surgem nas rádios e nos ecrãs de televisão como arautos de um saber pretensamente “científico”. Acresce que os «comentadeiros» empregam expressões absolutamente ridículas, como por exemplo «zona de construção». Alguém que comenta um jogo de futebol e usa a expressão «zona de construção» pode ser levado a sério? A zona de construção é qualquer ponto do campo onde se tenha a bola, qualquer zona do campo serve para construir ou dar inicio a uma jogada. Passaria pela cabeça de algum jogador ou treinador de futebol falar assim?
Mas esta forma muitas vezes absurda de dizer as coisas tem um objectivo: distinguir quem percebe do assunto, criar uma barreira entre os que dominam a «ciência» do futebol e os leigos. E esta distinção é fundamental para dar credibilidade àqueles que eu chamo de «comentadeiros» ou «arquitectos da bola». Como usam uma linguagem que não é a do comum dos mortais, é suposto serem portadores de um saber inacessível à maioria.
Ora, a experiência mostra que estes «saberes», não têm depois qualquer correspondência com a realidade. Carlos Azenha, portador do saber «científico» da bola tem-se revelado um tremendo flop – como atesta o jogo de segunda-feira.
Chamo a atenção que nada tenho contra os comentadores de futebol. Mas, os tais «comentadeiros» surgem perante o público como portadores de uma ciência oculta, inacessível à maioria, que usa os tais termos como «zona de construção» que não estão ao alcance do cidadão comum. E cujos estudos têm um tal pormenor que se diriam perfeitamente científicos. E, sendo ciência, não se discute.

Que absurdo!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Leão encarcerado na História

A pressão a que o Sporting está a ser sujeito não causa estranheza, apenas a cegueira dos seus dirigentes impedem de descortinar o que os olhos da maioria dos adeptos de futebol observam. No campo a equipa não joga, no banco o treinador não orienta nem consegue motivar os seus jogadores, o balneário está desagregado e a direcção limita-se a assistir impávida e serena ao descalabro.
O actual presidente do Sporting José Eduardo Bettencourt cometeu um erro grosseiro ao consubstanciar o seu projecto no treinador Paulo Bento em detrimento de ideias inovadores. Como gestor experiente deve saber melhor do que eu que os quatro principais alicerces de uma boa Gestão são: planeamento; direcção; organização e controlo, portanto, tudo aquilo que ficou por desenvolver e, ao invés, lamentou-se do orçamento, de não estar tão perto da equipa como gostaria e fazer afirmações disparatadas como: “Paulo Bento forever”, um presidente de um clube ou de uma empresa não pode fazer tais afirmações.

A assunção de Paulo Bento à equipa principal do Sporting não foi apoiada no mérito desportivo do treinador, mas antes, pelo imperativo financeiro da SAD. Paulo Bento não é um técnico credenciado nem tão-pouco tem qualidade para ser um treinador de top do futebol português. É verdade que cumpriu satisfatoriamente a tarefa de “interino” após a saída de José Peseiro. Aproveitou e bem, o desnorte do Benfica e alcançou resultados financeiros assinaláveis para a SAD com o apuramento para a Liga dos Campeões – mas deveria ter saído no final dessa época. Contudo, os resultados foram sempre em sentido oposto àquilo que deve ser o negócio do futebol: espectáculo atractivo, emoção, ambição, vontade, empatia com o público e, acima de tudo cumplicidade entre colegas e equipa técnica. Portanto, há muito que Paulo Bento deveria ter saído do cargo de treinador principal, talvez voltar aos juniores. O “Sporting de Paulo Bento” apesar de alcançar alguns resultados positivos, caracterizou-se sempre pelo mau futebol, intrigas de balneário, diferenciação no tratamento de jogadores, desvalorização de activos, e o que dizer da jornada europeia contra os alemães do Bayern Munique?

Surpreende-me a letargia das últimas direcções do Sporting, e dos mais acérrimos indefectíveis de Paulo Bento terem responsabilidades no clube e na SAD. Ontem num programa da SIC notícias o Dr. Dias Ferreira, finalmente, esclareceu a minha inquietante dúvida: segundo ele, o marasmo do Sporting durante 18 anos esteve ligado às constantes “chicotadas psicológicas” que o clube doutrinou nas décadas de 80 e 90. O clube foi gerido pela paixão e entusiasmo dos adeptos e não pela racionalidade dos gestores. Por isso, para não se cometer os mesmos erros, não há justificação para tomar medidas drásticas à mínima contrariedade – referindo-se à mudança da equipa técnica.
Mas será que o Dr. António Dias Ferreira não vê que isso é uma estupidez e uma aldrabice que pode sair cara ao Sporting? Mais cara do que alguns erros que se cometeram no passado? Os erros do passado não podem encarcerar o Sporting na inevitabilidade do triste fado, impedi-lo de caminhar em direcção ao futuro. Mínima contrariedade Jogar mau futebol tantas épocas!?“Paulo Bento forever” ou “derrotas forever”? Como descalças esta bota José Eduardo Bettencourt?!
Incompreensivelmente, os responsáveis do Sporting perfilharam desde há muito um discurso pouco exigente e resignado em relação à equipa de futebol. Pois, julgo sinceramente, que esta equipa tem capacidade para jogar mais e melhor – não com este treinador; a falta de dinheiro para contratações e o reduzido orçamento em comparação ao Benfica e Porto não pode servir de amparo para dissimular a falta de competência do treinador e da direcção: se assim fosse, então o Sporting teria obrigatoriamente de vencer todos os jogos contra as equipas de orçamentos menores, o que claramente contrasta com a realidade.

Os últimos resultados desportivos não são o maior problema do Sporting, são antes uma consequência do Sporting jogar mal (muitíssimo mal), apesar de muitos leoninos discordarem, há muito que venho afirmando para os perigos deste Sporting praticar tão mau futebol.

No futebol como na vida, não faço do mal alheio a minha felicidade, por essa razão e, apesar de ser benfiquista, gostaria de ver as equipas portuguesas mais fortes, a praticarem um futebol mais atractivo e a darem créditos nas competições europeias. Quanto mais fortes forem as nossas equipas, mais deleitosas serão as vitórias do meu Benfica.

Boa sorte ao Sporting em Florença.

Est multis certare datum, sed vincere paucis [Eiselein] – Competir é concedido a muitos, mas vencer a poucos.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A Burla

Todos os dias há pessoas que caiem no conto do vigário, é do senso comum, penso mesmo que não há ninguém que nunca tenha sido burlado pelo menos uma vez na vida.
No dia 8 de Junho à noite quando abri a torneira da cozinha de água quente, reparei passados alguns segundos que a água que saía continuava fria. O esquentador – Junkers –, liga-se automaticamente sempre que se abre uma torneira de água quente, são os chamados “esquentadores inteligentes”, deixara de funcionar, simplesmente não ligava. Fechei a torneira, abri-a novamente, e nada; experimentei com outras torneiras, e nada. As minhas suspeitas confirmaram-se, o esquentador acabara de avariar após nove anos de laborioso contributo doméstico.
O Sr. João Sousa é um técnico qualificado que mora na minha zona, repara e instala esquentadores, exaustores, máquinas de lavar (roupa, loiça), frigoríficos, etc., percebe também de electricidade, e tem sido a pessoa a fazer este tipo de trabalhos em minha casa, além do pai da minha mulher, sempre que lá vai invariavelmente acaba por fazer alguma coisa – a minha vocação para este tipo de tarefas não é famosa. Conheço-o há vários anos, e tenho como uma pessoa de confiança, referenciei-o por diversas vezes a pessoas amigas que ficaram satisfeitíssimas com a diligência do seu trabalho. Não! Não foi ele o autor da burla.
Voltando ao que interessa. Liguei ao Sr. João Sousa mas, infelizmente não atendeu o telemóvel, dado o adiantar da hora não insisti. A minha mulher costuma guardar alguns anúncios colocados na caixa do correio, e lembrou-me que havia um íman afixado no frigorífico com um anúncio de uma empresa de multiserviços que dizia mais ou menos o seguinte: “Reparamos tudo em casa…”, seguido de um número começado por 800.
No dia seguinte – terça-feira – liguei novamente ao Sr. João Sousa que voltou a não atender o telemóvel, insisti, liguei para o número directo do trabalho mas, uma vez mais, o ocioso auscultador continuava inerte do outro lado linha. Como estávamos numa semana de dois feriados, um quarta-feira e outro na quinta, calculei que ele poderia estar de férias com a família e, portanto, optei por telefonar para o tal anúncio afixado no frigorífico. Atendeu-me uma mulher muito simpática, pelo tom voz andaria na casa dos trinta e poucos anos. Relatei o que se passara e solicitei a ida de um técnico lá a casa. Pediu-me a morada, os meus dados pessoais e disse-me para aguardar um contacto dum técnico para com ele agendar uma visita. Não tardou mais de um quarto de hora para receber uma chamada do Sr. Victor. Expliquei-lhe tudo novamente e, fiquei um pouco surpreendido com o seu questionário:
“ Sr. José Gomes qual é a marca do seu esquentador?”
“É um Junkers, dos «inteligentes».”
“Há quantos anos o tem?”
“Tenho-o há nove anos”, respondi.
“Nove? E quando é que fez a última revisão?
Revisão?! Revisão é coisa de automóveis não de esquentadores, pensei eu! “Nunca foi feita”.
“Você nunca mandou fazer uma REVISÃO ao esquentador?!”
“Não!”, confesso que o tom de voz e a insolência do técnico desagradaram-me um pouco. Sabia lá eu que era necessário fazer a revisão ao esquentador. Insistiu no num registo de superioridade e altivez. Atalhei de pronto: “Sr. Victor desculpe lá a interrupção, mas preciso do esquentador reparado o mais breve possível. Pode Repará-lo ou não?” Senti que ficou um pouco surpreendido pela interrupção abrupta mas acabámos por agendar uma visita para o dia seguinte, quarta-feira ao meio dia. Seguramente não estava com paciência para aquele tipo de questionário, a privação do esquentador era já incómodo bastante. Não tanto por mim, pois estou habituado a tomar banho de água fria e quem comigo joga futebol às terças-feiras sabe que é verdade. Era pela minha mulher, que durante esses dias teve de aquecer umas quantas panelas de água, à moda antiga, para poder tomar banho.
Pus o despertador para as 11:30h do dia seguinte. Certamente daria tempo de tomar um duche de água fria e estar pronto para receber o técnico à hora marcada. Mas inesperadamente, o meu sono foi interrompido às 11:10h não com o toque do despertador, mas com o toque vigoroso da campainha.
Abri a porta e entra-me pela casa adentro um sujeito alto, gordo, cara patusca e bochechas rosadas, cabelo cumprido escuro e viscoso, a barriga proeminente denunciava a dificuldade de pôr a camisa para dentro das calças, motivo pelo qual estava desfraldado e estrafegado pela subida do lancil das escadas. No bom jargão português; é o típico “cromo”. Estendeu-me a mão direita, cumprimentou-me, a mão esquerda transportava uma enorme caixa de ferramentas e, sofregamente perguntou-me onde estava o esquentador. Encaminhei-o então ao local do aparelho e, não demorou cinco minutos para deslindar o enigma. Segundo ele, o problema era da gordura acumulada, mas para o confirmar, teria de levar o aparelho para a oficina, limpá-lo completamente e avaliar se havia mais alguma anomalia. Voltou a insistir na importância de fazer a revisão. Antes de sair fez um reparo trocista à pessoa que fizera a instalação – o Sr. João Sousa:
“Sr. José Gomes, não sem quem foi o «artista» que fez este trabalhinho, mas esta instalação está muito mal feita, além disso, não respeita as normas de segurança,” e continuou a argumentação apontando o dedo indicador na direcção do tubo do gás (canalizado), “se vier uma inspecção, o Sr. Leva uma multa pesada, este tubo tem de ser substituído, para sua segurança, mas não se preocupe com o preço que não é dispendioso”.
“Agradeço a sua preocupação. De facto este assunto não é o meu forte. Mas quem instalou este equipamento tem certificação de qualidade, e os inspectores do gás nunca levantaram qualquer reparo à instalação!”
“Pois, mas isso era antes. Agora as normas são outras. O Sr. José Gomes é que sabe, só quero ajudá-lo.” Antes de sair fiz-lhe uma pergunta e uma exigência:
“Sr. Victor, qual a previsão da reparação e entrega do esquentador? Antes de qualquer reparação quero um orçamento prévio.”
“Sr. José Gomes fique descansado. Na sexta-feira de manhã ligo a dar-lhe o orçamento e combinamos logo a hora da entrega.”
“Muito bem! Fico então a aguardar. Bom trabalho.” Despedimo-nos cordialmente.
Tudo isto se passou em menos de cinco minutos, assim que fechei a porta, senti um arrepio na espinha e intui que algo de errado se passara ali. É verdade que sou um leigo em esquentadores. Mas, os meus pressentimentos são como as convicções do Prof. Cavaco Silva: “Nunca se enganam e raramente têm dúvidas”. Por mais estranho que pareça, comecei a pesquisar na internet o preço dos esquentadores novos semelhantes àquele.
Na sexta-feira até ao meio dia, o Sr. Victor ainda não tinha dado sinal de vida, aguardava ansiosamente pelo toque do telemóvel. Liguei para o tal número (800…), atendeu-me outra rapariga de igual simpatia. Solicitei informação sobre a reparação, atenciosamente pediu-me que aguardasse. Ligou para o técnico, ouvi a conversa entre eles e passados alguns segundos, descansou-me dizendo que o Sr. Victor ainda estava de volta do esquentador, mas que me ligava logo em seguida. Tudo bem, pensei eu.
Depois do almoço ainda aguardava pelo telefonema. Esperei até às 16:00h e nenhum sinal de vida do técnico. Voltei a telefonar. De novo o mesmo processo, a rapariga a ligar para o técnico e a pedir-me educadamente que aguardasse pelo seu contacto. Liguei mais três vezes até à noite e a resposta foi sempre a mesma, unicamente o que mudava eram as operadoras. Finalmente por volta das 22:30h, um pouco desgastado com a falta de palavra do técnico, fui mais incisivo com as operadoras – nessa altura penso que todas elas me conheciam a voz –, contudo, as suas respostas eram sempre frugais e esquivas, exigi que o técnico entrasse imediatamente em contacto comigo ou, em alternativa, me dessem o número do telemóvel para eu entrar em contacto com ele. Acabaram por aceder e deram-me o número do telefone do Sr. Victor. Antes de desligar, perguntei à operadora se sabia o valor do orçamento, inesperadamente sabia; eram 155 € da reparação mais 29 € do tubo. Imediatamente recusei o orçamento e exigi a devolução do aparelho o quanto antes.
A minha preocupação nesta altura era a urgência da reparação ou, a colocação de um novo equipamento, a situação começava a ser insustentável sobretudo para a minha mulher. O que fazer? Ligar para o técnico ou esperar que ele me ligasse? Ele sabia que o orçamento fora recusado, sabia também que estava em falta, julguei que entrasse em contacto comigo num esforço de “reparar” o prejuízo: puro engano.
No Sábado de manhã a situação manteve-se inalterada até às 11:00h da manhã. O técnico teimava em não dar sinal de vida. Certamente despeitado pela minha recusa, poderia almejar condicionar a minha decisão ou, no limite, tomar uma posição de força, o esquentador continuava na sua posse. Telefonei para ele.
“Estou sim?”
“Sr. Victor? Fala José Gomes. Penso que me deve uma explicação!”
“Olhe, Sr. José Gomes, peço imensa desculpa mas ontem foi impossível ligar-lhe, fiquei sem saldo no telemóvel.”
“Ficou sem saldo no telemóvel?!”, esta resposta prenunciava problemas. Além de mentir despudoradamente, fazia-o com total descuido, não se preocupando por isso com o que eu pudesse considerar! “Tudo bem Sr. Victor, deixemo-nos de conversa fiada e vamos ao que interessa…”
“…espere, espere. Se achar que o preço do orçamento é muito caro posso tirar 20 € do tubo…”
“Acho que não percebeu Sr. Victor. Eu não quero que você repare o esquentador, pretendo que mo devolva o quanto antes.”
“Se é isso que pretende, terá de pagar-me 42 € pela deslocação.” O tom de voz mordaz pressagiava que o caminho da devolução do equipamento seria sinuoso, por isso não ofereci resistência, ansiava acabar o quanto antes com a burla.
“Tudo bem Sr. Victor. Não há problema. A que horas é que mo pode trazer”
“A que horas? Ora bem, hoje tenho um dia complicado…”
“Não importa a hora”, insisti.
“Então pode ser às 16:00h?”
“Pode sim senhor.”
A minha intuição não me deixava sossegado e pressentia que o técnico esquivar-se-ia mais uma vez. Não podia confiar nele, mas também não tinha grande alternativa senão tentar levar o “barco a bom porto”.
Para receber o técnico à hora marcada, saímos mais cedo que o previsto do almoço de aniversário da minha mãe Durante o trajecto de regresso a casa, lembrei-me novamente de ligar ao Sr. João Sousa. Desta vez tive sucesso. Após uma curta conversa conseguira convencê-lo a ir lá a casa no dia seguinte – Domingo –, um pouco atravancado, acabou por condescender. Agora, mais que nunca, era premente que o “cromo ” me devolvesse o esquentador.
O ponteiro do relógio estava prestes a anunciar as 18:00h e, nenhum sinal do Sr. Victor. Começava a perder a paciência com este tipo, já estava por tudo... Liguei para ele novamente mas não atendeu. Voltei a ligar para as operadoras da empresa, expus minuciosamente o que se passara, sem contemplações, nem sequer disposto a ouvir justificações. Por fim, exigi que fossem fornecidos os dados da empresa. A operadora ficou atrapalhadíssima e, imediatamente desligou-me o telefone. Não restavam dúvidas, fui burlado por um “cromo”.
Não foi preciso perder muito tempo para fazer uma pesquisa na internet e verificar que a morada da empresa era um apartado, mesmo assim, não baixei os braços e não estava disposto a virar a cara à luta.
Isto não pode acabar assim – pensei. Por um lado, tinha a confiança que ele quisesse “recuperar” pelo menos os 42 € da deslocação. Por outro, talvez essa quantia não fosse suficientemente tentadora para ter de me encarar cara-a-cara. O que fazer?
A última chamada para o técnico confirmou a burla, surpreendentemente atendeu o telemóvel.
“Então Sr. Victor?! Combinámos às 16:00h e são 18:00h, será possível que não seja capaz de cumprir com a palavra?”
“Olhe! Peço desculpa. Mas…”
“O que foi agora?! Que desculpa esfarrapada tem para me dar?!”, interrompi-o brutalmente, bastante irritado e exaltado. “Você é um ALDRABÃO!”
“Tenha calma. Não é nada disso que está a pensar. Eu tenho o seu esquentador comigo e estava a caminho de sua casa, mas tive um problema com o carro. Começou a perder óleo, peço desculpa mas não posso entregá-lo hoje. Tem de ficar para segunda-feira.” Refeito da cólera inicial, rapidamente percebi que teria de vencê-lo pela subtileza e não pelo insulto.
“O seu carro avariou e não pode cá vir, hum! Não há problema, onde está?”
“Bem, …” visivelmente atrapalhado e surpreso com a minha interpelação, “Estou em Setúbal.” Senti que o tinha na mão. Agora teria de conduzir a conversa por outro trilho, ser firme, mas deixá-lo pensar que tinha o controlo. Era necessário desarmá-lo, para isso tinha de evitar hostilizá-lo em excesso, e fazê-lo sentir-se culpado.
“Certo. Vamos fazer o seguinte se concordar: sugira um local e uma hora para nos encontramos. Eu vou ter consigo e trago o esquentador, assim poupo-lhe o trabalho da viagem e escusa de cá vir. Parece-lhe bem? Fique descansado que pago-lhe na mesma os 42 € da deslocação.”
“Bom, eu estou em Setúbal mas o esquentador não está comigo.”
“Caramba! Mas acabou de afirmar que estava a caminho de minha casa com o esquentador quando o seu carro avariou, e agora não o tem consigo?! Onde está então?”, decididamente a inteligência não era o forte do “cromo”, que continuava a mentir descaradamente.
“Bem… está no Seixal.”
“Diga-me a hora e o local, nem que seja no Porto ou no Algarve, tenho tempo.” Pressionei-o um pouco. Ele tinha de perceber que a minha decisão era irreversível e que não desistiria facilmente.
“Então fazemos antes outra coisa. Eu desenrasco uma boleia e pode crer que levo-lhe o esquentador.” O tipo não era parvo de todo, certamente quereria ganhar tempo e livrar-se de mim, teria sido cáustico demais?
“Sr. Victor diga-me lá, como posso confiar na sua palavra?”
“Não pode. Mas vai ter de confiar. Tem alternativa?”
“Certo. Forçosamente vou ter de confiar na sua palavra, já agora, pode vir a qualquer hora.” Neste jogo do gato e do rato voltava a ficar numa situação adversa. O rubor que senti naquele momento não justificava sequer o valor do equipamento. Desta vez, não caíra novamente no erro de esperar na penumbra do silêncio, tinha de o pressionar ainda mais, mas como? Liguei novamente para o número do anúncio, a voz do outro lado não era a mesma que me desligara o telefone anteriormente. Antes de mais, pedi-lhe que não desligasse a chamada à semelhança do que fizera a outra operadora. Pediu-me desculpa, e justificou o ocorrido, tudo se devera a um problema na central telefónica. Apesar da inverosímil fundamentação não contestei a justificação e continuei. Depois de expor novamente todas as peripécias, a que fora sujeito desde quarta-feira a sábado, responsabilizei-os por terem enviado aquele técnico. Informei-os que, caso não fosse entregue o aparelho naquele dia, apresentaria de imediato uma queixa-crime na polícia e instaurava-lhes um processo judicial. Pretendia que pressionassem o Sr. Victor. Apesar de tudo, realcei que o técnico se comprometera levar o equipamento até ao final do dia. A operadora não conseguiu disfarçar o nervosismo e a perturbação.
Toca o telemóvel.
“Então pá!? Está a brincar comigo ou quê? Não sou nenhum ladrão e não quero o seu esquentador para nada. O que não me falta lá em casa são esquentadores, não preciso do seu para nada ouviu?...” A conversa da operadora com o técnico tivera o efeito pretendido, talvez ela o tenha pressionado de mais.
“Óptimo. Era mesmo isso que esperava ouvir. Se não precisa dele então traga-mo de volta. Você nunca cumpriu com a palavra, como posso confiar em si, portanto, escusa de fazer-se de ofendido. Se há alguém que tem sido prejudicado durante estes dias todos sou eu, não você.”
“Fique descansado que o esquentador vai a caminho.” E desligou.
Este tipo de discussões acaba sempre por ter um efeito acabrunhante, tinha de impedir que um badameco estragasse o meu fim-de-semana. O que fazer? Esperar? Até quando?
Tocam à campainha finalmente!
Novamente estrafegado pela subida do lancil das escadas – meia dúzia de degraus, fiquei estarrecido pela simpatia.
“Pronto Sr. José Gomes aqui tem o seu esquentador. Está todo limpinho como pode verificar. Se precisar de alguma coisa, tem o meu número disponha.” Preparava-me para preencher o cheque dos 42 € da deslocação quando brutalmente virou costas e pirou-se! Senti um arrepio na espinha mais uma vez, qualquer coisa estranha se passara. Teria o equipamento a mesma haveria ou, propositadamente haveria mais alguma? Ou não! Será que o problema seria a falta de revisão e estaria em condições de funcionar?
No Domingo tinha encontro marcado com o Sr. João Sousa a partir das 16:00h. Esperei, esperei e nada. Não queria acreditar! Só quando peguei no telemóvel verifiquei que estava desligado porque tinha a bateria descarregada. Com a confusão do dia anterior tinha-me esquecido de pô-la a carregar. Afinal, era eu que estava em falta e não o Sr. João Sousa. Havia algumas mensagens e tentativas de contacto da sua parte, a última tinha sido quinze minutos antes. Falei com ele e desfiz-me em desculpas – seria por especial favor que suspendia um Domingo em família para ir lá a casa –, como pessoa bem-educada, aceitou a minha justificação, no entanto, a deslocação teria de ser adiada para o dia seguinte. O tormento teimava em não cessar.
No dia seguinte, quando chegou já passavam 21:00h, fora impossível ter vindo mais cedo comentou.
Contei-lhe – sem grande detalhe – o que acontecera com o Sr. Victor, não esboçou nenhuma surpresa.
“Oh! Com esses tipos é preciso ter muito cuidado, nem imagina os lamentos que me têm feito. Olhe, nos frigoríficos então é demais. Não reparam simplesmente, quando chegam ao cliente, abrem-nos, demoram uns cinco minutos e dizem logo que não tem reparação possível, ou então, que é muito dispendioso e a melhor solução é comprar novo. Depois cobram 50 € pela deslocação. Conheci algumas empresas que ganhavam dinheiro apenas pela cobrança das deslocações. Enfim!”
O primeiro diagnóstico não foi bom. Nada funcionava, chegou a duvidar se haveria reparação. Mas o zelo do seu trabalho não o deixou vencer pela inevitabilidade duma morte anunciada. Deslocou-se a casa para ir buscar umas peças e, quando terminou, sem ter jantado, já passavam das 23:00h. De bom gosto ofereci-lhe jantar, agradeceu mas, já vencido pelo cansaço ansiava pelo descanso. Despedimo-nos num até breve.
O preço? Foram 30 € pela mão-de-obra (mais de três horas trabalho) e 60 € de material, mas de boa vontade e como prova do meu agradecimento dei-lhe mais algum dinheiro, timidamente aceitou.
Quanto ao “Junkers”, funciona que é uma maravilha.

Animus decipiendi – A intenção de enganar.

domingo, 28 de junho de 2009

Golpe estatutário no Benfica

A demissão dos órgãos Sociais do Benfica a pedido de Luis Filipe Vieira e a marcação de eleições antecipadas para 3 de Julho, foi um insidioso golpe estatutário, não dando tempo para que outros candidatos possam apresentar novos projectos aos sócios. A ladainha de Luis Filipe Vieira de que salvou o clube da banca rota, restituiu a credibilidade da instituição, blá, blá, blá..., além de falaciosa, só se percebe vindo de alguém que está agarrando à cadeira do poder com a mesma gula que um urso se abarca dum pote de mel. O mandado de LFP acabava em Outubro, altura em que José Veiga faria cinco anos de sócio e, perante os estatutos do clube, poderia apresentar-se aos sócios como candidato e disputar a presidência do Benfica.

Como se percebe que LFP se demita juntamente com os órgãos sociais para antecipar as eleições?
Como se percebe que após a sua demissão substitua a equipa técnica de futebol – despedindo Quique Flores e contratando Jorge Jesus – e, continue a contratar jogadores estando em gestão corrente?
Como se percebe que LFP acabe de assinar um contrato de patrocínio com a Sagres para os próximos 12 anos a uma semana das eleições?
Como se percebe a instrumentalização que fez do Rui Costa dando-lhe um cargo para o qual não tem preparação?

À semelhança de Pinto da Costa, LFP não olha a meios para atingir os seus fins, mas enquanto o primeiro defende os interesses do F.C Porto o segundo está empenhadíssimo em condicionar e banir outras candidaturas em benefício próprio. Mas atenção: o prenúncio da candidatura de José Eduardo Moniz funcionou como uma guilhotina para LFM, agora, mais do que nunca, sabe perfeitamente que há alguém à altura de assumir os destinos do Benfica e, uma personalidade capaz de mobilizar a massa associativa e os sócios.

Nota: o Benfica pode porventura fazer uma boa época, pois, o Jorge Jesus é um óptimo treinador, ambicioso, determinado, confiante e um conhecedor profundo do futebol português. O Benfica tem sido o clube português que mais tem crucificado os treinadores, por isso, é curioso a singularidade de LFP estar refém de Jesus.

Cui spes omnis pendet ex fortuna, huic nihil potest esse certi [Cícero] – Para quem toda esperança depende da sorte, nada pode haver de certo.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Eleições Europeias 2009

Nas últimas Eleições Europeias o grande derrotado não foi unicamente o Partido Socialista de José Sócrates, foi a própria Democracia. A abstenção ultrapassou os 63% e, com isso, todos os partidos políticos foram fortemente penalizados pela descrença dos cidadãos. Causa-me por isso alguma estranheza que os líderes partidários tenham ignorado o divórcio dos Portugueses com a política, que não se tenham referido ao elevado número de abstencionistas. Cada líder fez a sua análise, aquela que melhor favorecesse o seu partido.

Os Portugueses não se interessam pela Europa, as politicas de Bruxelas dizem pouco aos nossos cidadãos, dizem alguns opinion makers. Não me convenço com esta explicação. Um terço da legislação Portuguesa vem de Bruxelas, mas a verdade, é que nesta campanha eleitoral os partidos alhearam-se de falar sobre a Europa. A oposição preocupou-se em atacar as políticas do Governo – que nada tem a ver com as Eleições Europeias – e observar o jurista Paulo Rangel no discurso da vitória referir que o Governo perdeu a legitimidade de governar, é duma parolice e dum provincianismo que revela bem o carácter da nossa classe política. Por outro lado, o Governo escudou-se sequer a debater ideias – se é que as tinha – com os seus adversários.

Não são os Portugueses que estão longe da Europa e de Bruxelas, são os políticos acanhados de ideias, órfãos de matriz ideológica que afastam os Portugueses da política. Após o 25 de Abril, Portugal tinha líderes com ideias fortes – Álvaro Cunhal, Mário Soares, Sá Carneiro e Freitas do Amaral –, com projectos diferenciados, em que o cidadão poderia escolher um rumo para o país.
Repare meu caro Leitor: quando os partidos se demitem de pensar e debater ideias, o que motiva o cidadão a votar? Quando a palavra é substituída pelo palavreado, que esclarecimento pode ter o cidadão? Quando os partidos se revezam na calúnia, na injúria e na demagogia, que confiança pode ter o cidadão?

Os partidos têm o imperativo moral de falar a verdade aos Portugueses, enquanto isso não acontecer, haverá sempre um divórcio latente entre o cidadão e a politica.

Vitiorum emendatricem legem esse oportet, commendatricemque virtutum [Cícero] – A lei tem de corrigir os vícios e valorizar as virtudes.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O Teatro dos Pesadelos



Sou um benfiquista confesso, mas quando se trata de clubes nacionais nas competições europeias o meu sentimento nacional sobrepõe-se ao meu benfiquismo. Vibro intensamente com um jogo do Sporting, do Benfica, do Braga, do Porto ou de qualquer outro clube nacional contra um estrangeiro.

Hoje à noite o F.C. Porto pode fazer história ao eliminar pela segunda vez consecutiva da Liga dos Campeões, um dos mais ricos e poderosos clubes de futebol do mundo, um crónico favorito à conquista desta competição: o Manchester United.
Neste momento o F.C. Porto parte em vantagem, pois alcançou um empate a dois golos em Old Trafford, mais conhecido como o “Teatro dos Sonhos”. Este empate foi conseguido com enorme competência, uma demonstração de carácter, de personalidade, solidariedade e uma ambição consubstanciada com uma magnífica exibição a que o mundo pôde contemplar.

A diferença de orçamentos e realidades dos dois clubes é colossal, muito embora, essas diferenças se esbatam em campo pela atitude e carácter da equipa portuguesa. Este comportamento é a prova de que os orçamentos não jogam futebol, e que a ambição e carácter nem sempre se conseguem comprar. Mas atenção: o Manchester United é uma equipa recheada de talentos, com jogadores de classe mundial pagos a peso de ouro, e sabemos perfeitamente que esta equipa tem capacidade para vencer em qualquer estádio do planeta.

Quando o sorteio ditou o confronto entre F.C. Porto e o Manchester United cabia a este último toda a responsabilidade de seguir em frente na competição, mas tudo se alterou com o empate em Old Trafford. Os papéis inverteram-se e este é o paradoxo do F.C. Porto, porque se não passar esta eliminatória fica com um sabor amargo de boca, por isso digo que o estádio do Dragão vai ser hoje à noite o “Teatro dos Pesadelos”.

Independentemente do desfecho logo à noite, não podemos olvidar o sucesso deste clube com os meios que tem à disposição. O F.C. Porto pode sonhar com a passagem à próxima eliminatória e o sonho comanda a vida, que inveja que tenho eu dos portistas…

Cupiditas est ipsa hominis essentia [Espinosa] – A ambição é a própria essência do homem.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Taças...

Hoje à noite o Sporting de Braga pode fazer história ao chegar pela primeira vez aos quartos - final da taça UEFA. Pena é que a comunicação social não evidencie este feito, em vez disso, inebriam o povo com a final da taça dos tristes – ou taça da liga?! – a ser disputada entre Benfica e Sporting no próximo sábado no Algarve, provavelmente a tábua de salvação de uma ou outra equipa.

O Sporting de Braga é a par do Zenit FC as duas únicas equipas na Europa que podem vencer esta época duas competições da UEFA. Este último, venceu a super - taça europeia ao derrotar o Manchester United de Cristiano Ronaldo e companhia, e o Braga venceu a taça Intertoto, tornando-se no quarto clube português a vencer uma competição oficial organizada pela UEFA. Mais uma vez, pouco ou nenhum destaque se deu a esta conquista pelos mídia.

Apesar do orçamento do Braga ser infinitesimamente inferior ao do Benfica e do Sporting, consegue impor-se brilhantemente na Europa do futebol pela humildade, esforço e ambição de alcançar vitórias que orgulham este pequeno país. É um exemplo e uma lição a seguir pelos “grandes” clubes de Lisboa, que soçobram vergonhosamente por esses estádios, porque de “grandes” apenas têm a memória dum passado, onde outrora, houve gentes com esta humildade e ambição que ecoaram os seus emblemas aos quatro cantos do mundo.

Boa sorte Braga!

Domat omnia virtus – O valor conquista tudo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Freeport – muito mal explicado!

Na quinta-feira da semana passada o primeiro-ministro convocou uma conferência de imprensa dirigida ao país, para se indignar e autojustificar das acusações infames sobre o seu envolvimento no caso Freeport. Acontece porém, que as justificações do primeiro-ministro foram duma boçalidade confrangedora, uma explicação obtusa, não esclareceu absolutamente nada, havendo mesmo algumas contradições. José Sócrates vitimizou-se e afirmou que tudo não passa de uma cabala insidiosa em ano de eleições.

A indignação é um direito de cidadania, como pode pois, o primeiro-ministro indignar-se com a indignação da opinião pública num caso em que são evidentes trapalhadas atrás de trapalhadas?

Não se rogou em lançar suspeitas avulsas sobre todo o sistema político – subentende-se a oposição –, sobre a justiça portuguesa e britânica e sobre a comunicação social. Na caturrice do choradinho autojustificativo de José Sócrates, é o próprio que politiza este caso enxovalhando-o e asseverando que tudo não passa de uma cabala. Por um lado, afirma que confia no funcionamento da justiça, e que esta tudo fará para desvendar a urdidura política, mas depois acha estranho a forma como têm decorrido as investigações com fugas sistemáticas de informações que deveriam estar em segredo de justiça. Causa alguma estranheza a preocupação do primeiro-ministro com as fugas de informação preterindo uma explicação cabal e objectiva sobre todos os factos ocorridos, e são bastantes!

As fugas de informação, apesar de condenáveis, podem em certas situações, serem um veículo eficaz na descoberta da verdade, um bom exemplo foi a descoberta do maior escândalo político da América – caso Watergate – e o que dizer sobre o caso Casa Pia?

Os políticos, assim como qualquer outro cidadão não estão acima da Lei, mas o que o José Sócrates não explicou na conferência de imprensa foram as inúmeras incongruências que este caso lançou para a opinião pública.

Sou um firme defensor da estabilidade política e, por isso, julgo que não se devem demitir frivolamente os Governos ou detentores dos mais altos cargos da governação, sem estabilidade política o pais fica ingovernável. Mas há casos em que a permanência no poder de quem recaiam suspeitas de corrupção em proveito próprio torna o normal funcionamento das instituições democráticas insustentável. O suposto favorecimento político a troco de avultadas somas de dinheiro no licenciamento do Freeport pode ser uma dessas excepções, tudo depende do resultado das investigações, que devem decorrer com a maior celeridade.

Há quem se interrogue se José Sócrates terá ou não condições de levar avante esta legislatura. Não sei, tudo depende da investigação e da implicação que venha a ter em casos ilícitos. Jorge Sampaio por muito menos demitiu o Governo de Pedro Santana Lopes.

A aparição deste caso ocorreu em 2005 durante a campanha eleitoral das últimas legislativas. Na altura José Sócrates acusava a oposição de tecer uma campanha difamatória com objectivos políticos, venceu as eleições e, este caso rapidamente colocaram-no na gaveta. Com a venda do Freeport em 2007 ao grupo “Carlyle”, e numa auditoria às contas, verificou-se um enorme buraco financeiro ao que consta, para pagamento de “luvas” no licenciamento e na primeira fase da construção. Por isso, o processo foi reaberto e o timing não é português mas sim britânico. Causa-me alguma perplexidade o facto de os ingleses reabrirem um processo que esteve parado durante dois anos e rapidamente encontrarem dados novos, particularmente o pagamento de “luvas”, o envolvimento de um tio e um primo de José Sócrates, e tudo isto passou despercebido às investigações portuguesas.

O que andou a fazer a Procuradoria-geral da Republica durante este tempo? A proteger o primeiro-ministro?

O comunicado de José Sócrates foi parolo e para parolos, e há factos que ficaram por explicar: a alteração da zona protegida do estuário do Tejo para a construção do Freeport a três dias dum Governo de gestão cessar funções; pedidos a entrarem nos serviços fora de horas e terem despacho; pagamento de “luvas” – os ingleses são exímios a seguirem o rasto de dinheiro, acabarão por descobrir a quem se destinou; as contradições de Sócrates, num primeiro momento afirma que nunca esteve envolvido, para depois da entrevista do tio, confirmar que afinal, participara numa reunião mostrando alguns lapsos de memória; envolvimento de José Sócrates em contactos que eram do domínio do Secretário de Estado, etc.

José Sócrates até pode estar inocente de todo este libelo, mas é um erro pensar-se que suspeitar de alguém é uma forma de aniquilação pública, seja um político, um gestor, um jornalista...

São demasiados casos a envolver José Sócrates que carecem de esclarecimento aos Portugueses, ainda está bem vincada na memória a polémica da sua licenciatura, as assinaturas dos projectos na Guarda nos anos oitenta, são traços de carácter que não inspiram confiança.

Ut suspicor – Como eu suspeito

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

CR7 – a coroação de um jogador brilhante

Cristiano Ronaldo é desde ontem, (12 de Fevereiro de 2009) considerado oficialmente pela FIFA como o melhor jogador do planeta. Depois de em 2001 Luis Figo ter recebido este prémio, foi agora a vez de CR7 ter sido consagrado com o mesmo galardão e com toda a justiça.

Estranhamente não foi noticiado mas, Cristiano Ronaldo foi o segundo jogador mais jovem de sempre a vencer este troféu, o primeiro foi também um Ronaldo, mas de nacionalidade brasileira e venceu-o com apenas 20 anos de idade, conhecido pelo cognome de “Fenómeno”. Este reparo valoriza ainda mais a distinção deste fabuloso futebolista, um jovem de 23 anos que chegou ao topo do mundo e que já venceu tudo o que um futebolista pode ambicionar a nível de clubes, simplesmente notável.

O que já não foi estranho – infelizmente – foi a divisão de opiniões dos seus compatriotas sobre a justiça deste troféu, pois muitos portugueses preferiam ver o Lionel Messi subir ao pódio na consagração do melhor dos melhores, também ele um jogador de enorme talento. Acontece porém, que este prémio diz respeito à época 2007/2008 em que CR7 venceu o campeonato inglês (Premier League), a Liga dos Campeões, o Campeonato do Mundo de Clubes, melhor marcador e jogador da Premier League, melhor marcador e jogador da Liga dos Campeões, etc. Durante este período não houve no mundo nenhum futebolista que se lhe comparasse.

Como se explica então esta animosidade de muitos portugueses perante o sucesso de Cristiano Ronaldo?

Julgo que há dois motivos que explicam esta reacção. A primeira prende-se pela fraca prestação do jogador ao serviço da Selecção de Nacional no último Europeu que foi ganho pela Espanha. Apesar de todos sabermos que ele jogou toda a competição lesionado, não lhe reconheceram o enorme esforço que fez pelo país, pelo orgulho que mantém em vestir a camisola das Quinas. Depois do torneio foi operado e teve quatro meses em recuperação, perdeu a pré-época mas mesmo com esse percalço tem vindo a ser um jogador novamente preponderante no seu clube. Além disso, não se saiu muito bem na novela que envolveu a sua hipotética transferência para o Real Madrid, mostrando mesmo alguma ingratidão pelo clube que o levou ao topo. O segundo motivo é porque Portugal deve ser o país com mais invejosos por metro quadrado, quando se tem um compatriota que mostra um enorme talento ao mundo com unânime reconhecimento e se destaca vêm logo uma série de invejosos manifestar a sua desilusão pelo sucesso de outrem. Há muitos Portugueses que não suportam o êxito alheio, ninguém chega a grande sem ser abocanhado pela pequenez, faz parte da condição humana.

Cristiano Ronaldo tem um enorme talento e aptidão para a prática do futebol, mas não se chega a este patamar só porque se tem talento. É preciso muito mais; é necessário um enorme espírito de sacrifício; uma enorme vontade de vencer e doses industriais de ambição; muita abnegação; quase uma vida ascética.

Um país com pouco mais de dez milhões de habitantes como é Portugal, ter no espaço de oito anos, dois jogadores reconhecidos como o Melhor do mundo, penso que é um enorme orgulho para os Portugueses e, é uma projecção de Portugal no mundo inteiro. Estas duas personalidades fizeram mais pela projecção do nosso país do que algumas campanhas promocionais de Portugal encetadas pelo Governo de José Sócrates.
Parabéns CR7!

Assidua eminentis fortunae comes invidia – A inveja é companheira permanente do sucesso

A irracionalidade do futebol

O campeonato nacional está ao rubro com a alternância de líderes semana após semana, o Benfica com os mesmos pontos que o Sporting seguido do F.C. Porto apenas a um ponto dos rivais de Lisboa. Posto isto, parece que temos uma prova saudavelmente competitiva. Puro engano, temos isso sim uma prova mais equilibrada que em anos anteriores e, muito por força de algumas arbitragens absolutamente escandalosas para os amantes de futebol.

Nos ditames do espectáculo rei não há qualquer racionalidade, pois a aroma do espectáculo é a irracionalidade da paixão clubista; o acaso dos resultados – da bola que bate no poste e caprichosamente não entra –; são os adeptos e principalmente a exígua moral dos dirigentes dos grandes clubes que sentenciam os árbitros na praça pública não pelo que estes fazem, mas sim, pelos efeitos positivos ou negativos que as suas prestações emprestam às suas equipas.

Recordo com alguma saudade em que no meu Benfica ganhar não era suficiente. O caso do Toni é um bom exemplo, apesar de ter sido Campeão Nacional foi despedido no final da época. Porquê? Porque a equipa não apresentava a espectacularidade que os adeptos estavam habituados, os adeptos eram mais exigentes com os jogadores dos seus clubes. Apoiavam-nos é certo, mas em troca exigiam boas jogadas, bons intérpretes e bons resultados, se marcassem três golos o público pedia o quarto e por aí fora.

O que se passou nesta última jornada foi simplesmente escandaloso. O Benfica venceu pela margem mínima o Sporting de Braga e ascendeu ao primeiro lugar da Liga com uma arbitragem irreal.

Será que os benfiquistas estão orgulhos por estarem na liderança?

Eu não estou. O Benfica não merece estar no primeiro lugar, a classificação não espelha a verdade desportiva e, o presidente Luis Filipe Vieira que luta tanto pela verdade e pela transparência confinou-se a um silêncio sepulcral. Perdeu uma grande oportunidade de continuar a lutar pela Verdade Desportiva e conquistar algum respeito – pelo menos o meu –, mas não é esse o seu desígnio. Parece-me pois que a classe dirigente não pretende a irradiação da corrupção, nem acabar com o tráfico de influências, etc., parece-me isso sim, que lutam avidamente pelo seu controlo, e o povinho estupidamente vai dando cobertura e apoiando. Portugal tem o futebol que merece.